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Cor. Clodomir Alvarenga

Clodomir Sá Viana de Alvarenga nasceu em  Évora no dia 18 de Dezembro de 1918 e faleceu no dia 4 de Março de 2004 em Lisboa.

No dia 6 de Março de 2004, no cemitério do Alto de S. João, antes da urna descer à terra o General António Cipriano Pinto falando aos presentes disse: “... e por tudo isto, todos recordaremos Clodomir Alvarenga como um cristão exemplar”. Sem duvida uma justa homenagem e por certo o ideal pelo qual Clodomir Alvarenga norteou a sua vida.
Mas a este epítome corresponde uma longa história com mais de 85 anos.

Nascido no seio de uma família com tradições militares (pai e avô paterno foram oficias do exército) Clodomir Alvarenga viria a abraçar a carreira das armas.
Casou-se com 28 anos, no dia 30 de Janeiro de 1946, e foi pai de dois filhos tendo o primeiro nascido em 1955 (falecido em 1984) e o segundo em 1958.
Ingressa no Exército com 18 anos, no dia 9 de Agosto de 1937, e conclui o Curso de Infantaria em 25 de Julho de 1941. É promovido a Alferes em 1941, a Tenente em 1945, a Capitão em 1947, a Major em 1956, a Ten-Coronel em 1961 e a Coronel em 1968.
Fez as seguintes comissões de serviço: Madeira (1942-1944), Índia (1948-1951), Moçambique (1951-1953), Açores (1960-1961 e 1966-1968), S. Tomé (1953 a 1955), Angola (1963-1966 e 1968-1970).

Com 17 louvores na Folha de Serviço é detentor do grau de Oficial da Ordem Militar de Avis (destinada a premiar altos serviços militares prestados por oficiais das Forças Armadas), da Medalha de Serviços Distintos (destinada a galardoar serviços de carácter militar relevantes e extraordinários de que resulte honra e lustre para a Pátria ou para as instituições militares do País), da Medalha de Mérito Militar (destinada a galardoar militares que revelem excecionais qualidades e virtudes militares, pelas quais devem ser especialmente apontados ao respeito e à consideração pública), da Medalha D. Afonso Henriques (Patrono do Exército) e das Medalhas das Campanhas de Angola.

S. Tomé e Príncipe
No principio dos anos 50, quase uma década antes do inicio da guerra colonial, as autoridades portuguesas vêm-se envolvidas num massacre em S. Tomé onde terão morrido cerca de mil negros às mãos dos colonos. É o massacre de Batepá.

Em Janeiro de 1953, um mês antes do massacre, preparava-se o "Plano de Fomento" (plano plurianual de desenvolvimento) e o povoamento e a fixação de mão-de-obra em S. Tomé e Príncipe era uma questão polémica. Havia um forte e amplo movimento no sentido de garantir: 1) o nivelamento perante a lei de todas as populações vivendo em S. Tomé e a aplicação da lei a todos sem exceção: europeus, nativos-forros, nativos-angolares, nativos-tongas, angolares,

moçambicanos e cabo-verdianos; 2) constituir uma população agrária livre.
As grandes Roças, dependentes dos negros em regime de trabalhos forçados vêm, por esta via, o seu futuro comprometido. Para agravar ainda mais a situação a economia cacaueira atravessa uma crise.

O detonador desta situação explosiva é a afixação,  pela calada da noite, de cartazes escritos em dialeto com o seguinte dizer: “Vamos cortar a cabeça do governador, matar todos os brancos e ficar com as mulheres deles”. A população ficou aterrorizada. Não se sabe quem colou os cartazes mas não é de excluir que tenham sido os senhores das roças já que, objetivamente, os cartazes serviram para esmagar um movimento de progresso e proporcionar um novo ciclo de repressão oferecendo trabalho quase escravo às roças.
O Governador de S. Tomé, Carlos Sousa Gorgulho, reage de imediato. A capacidade militar é reduzida, 180 militares dos quais 10 portugueses e 100 nativos de S. Tomé. Estes últimos são expulsos para não comprometerem o desenrolar dos acontecimentos. O comandante da Policia, Capitão Salgueiro Rego, não pactua com o plano do governador e é colocado em prisão domiciliária sendo, poucos dias depois, embarcado para o Continente. Sucede no comando da policia o Tenente Santos Ferreira, homem do governador. Formam-se as milícias e inicia-se o massacre, mais de 600 homens partem para as matas e vilas para travar o avanço de uma eventual e hipotética revolta. Os nativos são chacinados às centenas e são atirados ao mar seguindo a ordem direta do governador: “Deita essa merda ao mar para evitar mais chatices”.

Findo o massacre e ainda em 1953 o então Capitão Clodomir Alvarenga é mandado para S. Tomé para substituir o comandante da policia, Santos Ferreira. Seguem-se três difíceis anos de investigações e julgamentos. Clodomir Alvarenga viria a afirmar: “Aquilo tratou-se de uma tentativa de extermínio e era impossível que Salazar, sempre tão bem informado, o desconhecesse”. A viagem presidencial a S. Tomé não contribui para que se desenvolvam todos os esforços no sentido do apuramento da verdade.

Em Outubro de 1955 Clodomir Alvarenga é mandado regressar à metrópole. Em 1956 o Governo Português encerra as investigações e tudo é coberto com o véu do silêncio.
A formação católica de Clodomir Alvarenga não lhe irá permitir esquecer o massacre de Batepá nem a forma como o regime se furtou ao apuramento e punição dos responsáveis.

                                                                                        
(Meu pai e minha mãe em S.Tomé)

Revolta da Sé
O massacre de Batepá associado à vasta movimentação popular gerada pela candidatura do General Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 fazem crescer em Clodomir Alvarenga uma firme vontade conspiratória contra o regime Salazarista.
Clodomir Alvarenga adere ao Movimento Militar Independente que realiza as reuniões conspiratórias na Sé de Lisboa, com a conivência do pároco, o padre Perestrelo de Vasconcelos.
Inicialmente a revolta é planeada no dia em 18 de Dezembro de 1958 para ter lugar no dia 28 do mesmo mês. A revolta é abortada e dá origem a uma série de intentonas.
Em 12 de Março de 1959, Clodomir Alvarenga participa na tentativa de golpe denominada “da Sé” que foi dirigida pelo então Major Pastor Fernandes e pelo católico Manuel Serra.
O então Major Clodomir Alvarenga, Oficial da chamada “Junta Militar” reúne-se na leitaria “Tátá”, na Avenida Infante Santo, com Manuel Serra, Major Calafate e Capitão Romba, explicando os possíveis motivos do fracasso do movimento. Contudo, mantendo a Junta Militar a intenção de prosseguir, desloca-se ao Batalhão de Metralhadoras Nº 1, com o propósito de sair com as tropas da unidade. Exposto desta forma garantiu um lugar na prisão.

A revolta não chega a eclodir porque a Junta Militar não o considera oportuno. Apesar de existir uma organização militar à escala nacional, o comando era formado também por elementos civis, sobre quem recaia a menor parte das responsabilidades da decisão politica.
O golpe falhado deixa consequências.
É a primeira vez que setores católicos atuam numa conspiração. A revolta da Sé marca o inicio do empenhamento sério dos setores católicos contra o regime.  
Está criada uma unidade das várias correntes de oposição ao regime – republicana, social-democrática, socialista e católica – no sentido de derrubar o Salazarismo. Seguir-se-á a Revolta de Beja (1962 – liderada pelo militante socialista católico Manuel Serra e pelo Capitão Varela Gomes), depois a intentona das Caldas da Rainha (16 Março 1974) e, finalmente, a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.
Clodomir Alvarenga foi preso no dia 18 de Março, julgado no dia 25 de Julho de 1960 pelo 1º Tribunal Militar de Lisboa pelo crime de conjuração contra o regime salazarista sendo condenado em 20 meses de prisão.
Clodomir Alvarenga é preso inicialmente na Trafaria sendo, posteriormente, transferido para Elvas. Desta última prisão evadem-se os camaradas de intentona, capitão Almeida Santos e o médico miliciano Jean-Jacques Valente, com o apoio do cabo Gil da guarda nacional republicana. As circunstâncias da fuga levarão ao assassinato de Almeida Santos, dando origem ao romance de José Cardoso Pires, A Balada da Praia dos Cães, que mais tarde passou para o cinema.

A Guerra Colonial
Nas duas comissões em Angola foi Comandante de Batalhão no teatro de operações. Como comandante do BCAÇ 540 o então Ten.Cor. Clodomir Alvarenga mereceu sucessivos louvores do Brigadeiro Comandante do Sector-A da Região Militar de Angola e do Ministro do Exército. Nesses louvores, transcritos para a folha de serviço, são destacados o forte contributo do BCAÇ 540 para a eliminação do terrorismo no Norte de Angola salientando que o BCAÇ 540 constitui uma “elite e que deve ser apontado como exemplo”.
A sua acção como comandante do BCAÇ 2841 também foi objeto de louvor tendo-se estabelecido um forte elo entre o Comando e as tropas.

O espírito de abnegação, dedicação e sacrifício demonstrado pelas tropas do BCAÇ 540 e do BCAÇ 2841 tocou profundamente Clodomir Alvarenga que nutria pelos seus homens um enorme respeito e consideração. Esse sentimento era de resto recíproco.

                                                           
(Meu Pai em Luanda, praia da Samba, com a família)

25 de Abril
Em 1970, com a patente de Coronel, é colocado na metrópole como Inspetor o que o obriga a um constante périplo pelas unidades militares. Este contacto generalizado com as unidades dá-lhe consciência da vaga de fundo que se preparava nas Forças Armadas e leva-o a assumir-se como um discreto catalisador dessa vontade de mudança.
No dia 25 de Abril de 1974 dá-se a Revolução dos Cravos e Clodomir Alvarenga que no momento se encontrava numa inspeção a uma unidade do Alentejo adere de imediato aos revoltosos e intercede junto do comando da região para que se junte aos revoltosos, o que de resto veio a acontecer.

Nas eleições para a Assembleia Constituinte Clodomir Sá Viana é o cabeça de lista do PSD para o circulo de Évora. Nesse período conturbado a realização de uma campanha eleitoral do PSD no coração do Alentejo é um exercício difícil e perigoso.
Apesar do passado antifascista de Clodomir Alvarenga e da sua autoridade moral são várias as agressões à campanha eleitoral do PSD tendo a sua viatura particular sido um alvo privilegiado.

Ficou na memória dos seus companheiros de campanha o episódio que ocorreu durante uma ação de rua em que um individuo chegando-se perto de Clodomir Alvarenga o ameaça com palavras e lhe encosta uma pistola à barriga. Clodomir Alvarenga olhou-o nos olhos e disse: “dispara e deixa-te de conversas”. Surpreendido, o agressor guardou a pistola e retirou-se.

Clodomir Alvarenga não consegue a eleição para a Assembleia Constituinte mas nem por isso o seu espírito de militância no PSD diminui, mantendo-o até ao final da sua vida. Com efeito, ainda, nas eleições autárquicas de 1998 e de 2002, integrou as listas do PSD para a Assembleia de Freguesia dos Anjos.

Igualmente notória foi a ação desenvolvida no apoio aos retornados das ex-colónias, particularmente no âmbito do IARN. Nestas e em muitas outras funções mostrou empenho em servir a causa publica de uma forma voluntariosa e gratuita sem reclamar qualquer tipo de contrapartida financeira.        

Julgamento dos PIDES
Na Reserva é colocado como Juiz Militar nos Tribunais Militares Territoriais de Lisboa onde desempenha as funções até 1987.

Durante esse período os Tribunais Militares estão, entre outros processos, incumbidos de julgar os PIDES.

O passado antifascista de Clodomir Alvarenga dá-lhe a autoridade moral para punir de uma forma consciente a violência exercida pela PIDE, ao mesmo tempo que a sua formação católica lhe permite exercer a clemência que os tempos de reconstrução nacional clamavam.

Foi um período difícil com uma pressão constante dos meios de comunicação social e várias ameaças de morte, feitas de forma anónima, a si e à sua família.

Mereceu o seguinte louvor do Chefe do Estado-Maior do Exército: “Na linha de uma vida militar cumprida com devotado zelo e com repetidas provas de dedicação abnegada, de desprezo de riscos, de comando eficaz em atividades normais e em operações de campanha, o coronel Alvarenga, nas demoradas funções de Juiz Militar dos Tribunais Militares Territoriais de Lisboa, prestou serviços altamente honrosos e brilhantes à Justiça Militar, com resultados enobrecedores para o Exército”.


Reforma
Em 1988 Clodomir Alvarenga passa à reforma, por limite de idade, sem contudo abandonar uma vida ativa e participativa. Três grandes instituições irão merecer toda a sua dedicação e esforço: Associação Pró-Infância Santo António de Lisboa, Real Irmandade Nossa Senhora da Saúde e Associação Lar de Cegos Nossa Senhora da Saúde.

Trabalhando de uma forma voluntariosa e não remunerada realizou-se plenamente através da concretização do seu propósito de ajudar o próximo e pela feliz circunstância de nas três instituições ter estado envolvido com equipas de gestão que partilhavam genuinamente do mesmo sentimento.       

A revista da Junta de Freguesia dos Anjos (número de Janeiro/Junho 2004) concluía o seu artigo de homenagem a Clodomir Alvarenga da seguinte forma:
" ... a Associação Pró-Infância aquela a quem deu inteira dedicação durante 15 anos de esforço na luta pelo engrandecimento da Instituição como protetora de crianças a quem acarinhou no dia-a-dia.

À família enlutada, a Junta de Freguesia apresenta os sentidos pêsames.
A Pátria Portuguesa, a cidade de Lisboa e, em especial, a Freguesia dos Anjos, perdera, assim, um cidadão exemplar, dedicado à causa pública, à liberdade e à solidariedade para com aqueles que mais necessitam.

A Freguesia dos Anjos, a cidade de Lisboa e, em especial, a Pátria Portuguesa, perderam assim, um homem bom e de fé e um cidadão exemplar, dedicado à causa pública e à liberdade pugnando, sempre, por aqueles que mais precisavam”.

Memorial

Rui