Os Lusíadas - Canto VII

 

 

 


Os Lusíadas

 

 


Canto VII

 

1
JÁ se viam chegados junto à terra
Que desejada já de tantos fora,
Que entre as correntes Índicas se encerra
E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora:
Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante!

2
A vós, ó geração de Luso, digo,
Que tão pequena parte sois no mundo,
Não digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de Quem governa o Céu rotundo;
Vós, a quem não sòmente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobiça ou pouca obediência
Da Madre que nos Céus está em essência;

3
Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A lei da vida eterna dilatais:
Assi do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito poucos que sejais,
Muito façais na santa Cristandade.
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

4
Vede'los Alemães, soberbo gado,
Que por tão largos campos se apacenta;
Do sucessor de Pedro rebelado,
Novo pastor e nova seita inventa;
Vede'lo em feias guerras ocupado,
Que inda co cego error se não contenta,
Não contra o superbíssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.

5
Vede'lo duro Inglês, que se nomeia
Rei da velha e santíssima Cidade,
Que o torpe Ismaelita senhoreia
(Quem viu honra tão longe da verdade?),
Entre as Boreais neves se recreia,
Nova maneira faz de Cristandade:
Pera os de Cristo tem a espada nua,
Não por tomar a terra que era sua.

6
Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei
A cidade Hierosólima terreste,
Enquanto ele não guarda a santa Lei
Da cidade Hierosólima celeste.
Pois de ti, Galo indino, que direi?
Que o nome «Cristianíssimo» quiseste,
Não pera defendê-lo nem guardá-lo,
Mas pera ser contra ele e derribá-lo!

7
Achas que tens direito em senhorios
De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
E não contra o Cinífio e Nilo rios,
Inimigos do antigo nome santo?
Ali se hão-de provar da espada os fios
Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
De Carlos, de Luís, o nome e a terra
Herdaste, e as causas não da justa guerra?

8
Pois que direi daqueles que em delícias,
Que o vil ócio no mundo traz consigo,
Gastam as vidas, logram as divícias,
Esquecidos do seu valor antigo?
Nascem da tirania inimicícias,
Que o povo forte tem, de si inimigo.
Contigo, Itália, falo, já sumersa
Em vícios mil, e de ti mesma adversa.

9
Ó míseros Cristãos, pola ventura
Sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
Que uns aos outros se dão à morte dura,
Sendo todos de um ventre produzidos?
Não vedes a divina Sepultura
Possuída de Cães, que, sempre unidos,
Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
Fazendo-se famosos pela guerra?

10
Vedes que têm por uso e por decreto,
Do qual são tão inteiros observantes,
Ajuntarem o exército inquieto
Contra os povos que são de Cristo amantes;
Entre vós nunca deixa a fera Aleto
De samear cizânias repugnantes.
Olhai se estais seguros de perigos,
Que eles, e vós, sois vossos inimigos.

11
Se cobiça de grandes senhorios
Vos faz ir conquistar terras alheias,
Não vedes que Pactolo e Hermo rios
Ambos volvem auríferas areias?
Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;
África esconde em si luzentes veias;
Mova-vos já, sequer, riqueza tanta,
Pois mover-vos não pode a Casa Santa.

12
Aquelas invenções, feras e novas,
De instrumentos mortais da artelharia
Já devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
Fazei que torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da Cítia fria
A Turca geração, que multiplica
Na polícia da vossa Europa rica.

13
Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
Bradando vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcorão (duro tributo!).
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E não queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos mui possantes.

14
Mas, entanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão Cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana:
De África tem marítimos assentos;
É na Ásia mais que todas soberana;
Na quarta parte nova os campos ara;
E, se mais mundo houvera, lá chegara.

15
E vejamos, entanto, que acontece
Àqueles tão famosos navegantes,
Despois que a branda Vénus enfraquece
O furor vão dos ventos repugnantes;
Despois que a larga terra lhe aparece,
Fim de suas perfias tão constantes,
Onde vem samear de Cristo a lei
E dar novo costume e novo Rei.

16
Tanto que à nova terra se chegaram,
Leves embarcações de pescadores
Acharam, que o caminho lhe mostraram
De Calecu, onde eram moradores.
Pera lá logo as proas se inclinaram,
Porque esta era a cidade, das milhores
Do Malabar, milhor, onde vivia
O Rei que a terra toda possuía.

17
Além do Indo jaz e aquém do Gange
Um terreno mui grande e assaz famoso
Que pela parte Austral o mar abrange
E pera o Norte o Emódio cavernoso.
Jugo de Reis diversos o constrange
A várias leis: alguns o vicioso
Mahoma, alguns os Ídolos adoram,
Alguns os animais que entre eles moram.

18
Lá bem no grande monte que, cortando
Tão larga terra, toda Ásia discorre,
Que nomes tão diversos vai tomando
Segundo as regiões por onde corre,
As fontes saem donde vêm manando
Os rios cuja grão corrente morre
No mar Índico, e cercam todo o peso
Do terreno, fazendo-o quersoneso.

19
Entre um e o outro rio, em grande espaço
Sai da larga terra ũa longa ponta,
Quási piramidal, que, no regaço
Do mar, com Ceilão ínsula confronta;
E junto donde nasce o largo braço
Gangético, o rumor antigo conta
Que os vizinhos, da terra moradores,
Do cheiro se mantêm das finas flores.

20
Mas agora, de nomes e de usança
Novos e vários são os habitantes:
Os Deliis, os Patanes, que em possança
De terra e gente, são mais abundantes;
Decanis, Oriás, que a esperança
Têm de sua salvação nas ressonantes
Águas do Gange; e a terra de Bengala,
Fértil de sorte que outra não lhe iguala;

21
O Reino de Cambaia belicoso
(Dizem que foi de Poro, Rei potente);
O Reino de Narsinga, poderoso
Mais de ouro e pedras que de forte gente.
Aqui se enxerga, lá do mar undoso,
Um monte alto, que corre longamente,
Servindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canará vive seguro.

22
Da terra os naturais lhe chamam Gate,
Do pé do qual, pequena quantidade,
Se estende ũa fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade.
Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabeça de Império, rica e bela;
Samorim se intitula o senhor dela.

23
Chegada a frota ao rico senhorio,
Um Português, mandado, logo parte
A fazer sabedor o Rei gentio
Da vinda sua a tão remota parte.
Entrando o mensageiro pelo rio
Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
A cor, o gesto estranho, o trajo novo,
Fez concorrer a vê-lo todo o povo.

24
Entre a gente que a vê-lo concorria,
Se chega um Mahometa, que nascido
Fora na região da Berberia,
Lá onde fora Anteu obedecido.
(Ou, pela vezinhança, já teria
O Reino Lusitano conhecido,
Ou foi já assinalado de seu ferro;
Fortuna o trouxe a tão longo desterro).

25
Em vendo o mensageiro, com jocundo
Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
Lhe disse: – «Quem te trouxe a estoutro mundo,
Tão longe da tua pátria Lusitana?»
– «Abrindo (lhe responde) o mar profundo
Por onde nunca veio gente humana;
Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Por onde a Lei divina se acrecente.»

26
Espantado ficou da grão viagem
O Mouro, que Monçaide se chamava,
Ouvindo as opressões que na passagem
Do mar o Lusitano lhe contava.
Mas vendo, enfim, que a força da mensagem
Só pera o Rei da terra relevava,
Lhe diz que estava fora da cidade,
Mas de caminho pouca quantidade;

27
E que, entanto que a nova lhe chegasse
De sua estranha vinda, se queria,
Na sua pobre casa repousasse
E do manjar da terra comeria;
E despois que se um pouco recreasse,
Co ele pera a armada tornaria,
Que alegria não pode ser tamanha
Que achar gente vizinha em terra estranha.

28
O Português aceita de vontade
O que o ledo Monçaide lhe oferece;
Como se longa fora já a amizade,
Co ele come e bebe e lhe obedece.
Ambos se tornam logo da cidade
Pera a frota, que o Mouro bem conhece.
Sobem à capitaina, e toda a gente
Monçaide recebeu benignamente.

29
O Capitão o abraça, em cabo ledo,
Ouvindo clara a língua de Castela;
Junto de si o assenta e, pronto e quedo,
Pela terra pergunta e cousas dela.
Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,
Só por ouvir o amante da donzela
Eurídice, tocando a lira de ouro,
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

30
Ele começa: – «Ó gente, que a Natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que destino tão grande ou que ventura
Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
Não é sem causa, não, oculta e escura,
Vir do longinco Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados,
A Reinos tão remotos e apartados.

31
«Deus, por certo, vos traz, porque pretende
Algum serviço seu por vós obrado;
Por isso só vos guia e vos defende
Dos imigos, do mar, do vento irado.
Sabei que estais na Índia, onde se estende
Diverso povo, rico e prosperado
De ouro luzente e fina pedraria,
Cheiro suave, ardente especiaria.

32
«Esta província, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar se chama;
Do culto antigo os Ídolos adora,
Que cá por estas partes se derrama;
De diversos Reis é, mas dum só fora
Noutro tempo, segundo a antiga fama:
Saramá Perimal foi derradeiro
Rei que este Reino teve unido e inteiro.

33
«Porém, como a esta terra então viessem
De lá do seio Arábico outras gentes
Que o culto Mahomético trouxessem,
No qual me instituíram meus parentes,
Sucedeu que, prègando, convertessem
O Perimal; de sábios e eloquentes,
Fazem-lhe a Lei tomar com fervor tanto
Que pros[s]upôs de nela morrer santo.

34
«Naus arma e nelas mete, curioso,
Mercadoria que ofereça, rica,
Pera ir nelas a ser religioso
Onde o Profeta jaz que a Lei pubrica.
Antes que parta, o Reino poderoso
Cos seus reparte, porque não lhe fica
Herdeiro próprio; faz os mais aceitos
Ricos, de pobres; livres, de sujeitos.

35
«A um Cochim e a outro Cananor,
A qual Chale, a qual a Ilha da Pimenta,
A qual Coulão, a qual dá Cranganor,
E os mais, a quem o mais serve e contenta.
Um só moço, a quem tinha muito amor,
Despois que tudo deu, se lhe apresenta:
Pera este Calecu sòmente fica,
Cidade já por trato nobre e rica.

36
«Esta lhe dá, co título excelente
De Emperador, que sobre os outros mande.
Isto feito, se parte diligente
Pera onde em santa vida acabe e ande.
E daqui fica o nome de potente
Çamori, mais que todos dino e grande,
Ao moço e descendentes, donde vem
Este que agora o Império manda e tem.

37
«A Lei da gente toda, rica e pobre,
De fábulas composta se imagina.
Andam nus e sòmente um pano cobre
As partes que a cobrir Natura ensina.
Dous modos há de gente, porque a nobre
Naires chamados são, e a menos dina
Poleás tem por nome, a quem obriga
A Lei não mesturar a casta antiga;

38
«Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,
De outro não podem receber consorte;
Nem os filhos terão outro exercício
Senão o de seus passados, até morte.
Pera os Naires é, certo, grande vício
Destes serem tocados; de tal sorte
Que, quando algum se toca porventura,
Com cerimónias mil se alimpa e apura.

39
«Desta sorte o judaico povo antigo
Não tocava na gente de Samária.
Mais estranhezas inda das que digo
Nesta terra vereis de usança vária.
Os Naires sós são dados ao perigo
Das armas; sós defendem da contrária
Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
Na esquerda a adarga e na direita a espada.

40
«Brâmenes são os seus religiosos,
Nome antigo e de grande preminência;
Observam os preceitos tão famosos
Dum que primeiro pôs nome à ciência;
Não matam cousa viva e, temerosos,
Das carnes têm grandíssima abstinência.
Sòmente no Venéreo ajuntamento
Têm mais licença e menos regimento.

41
«Gerais são as mulheres, mas sòmente
Pera os da geração de seus maridos
(Ditosa condição, ditosa gente,
Que não são de ciúmes ofendidos!)
Estes e outros costumes vàriamente
São pelos Malabares admitidos.
A terra é grossa em trato, em tudo aquilo
Que as ondas podem dar, da China ao Nilo.»

42
Assi contava o Mouro; mas vagando
Andava a fama já pela cidade
Da vinda desta gente estranha, quando
O Rei saber mandava da verdade.
Já vinham pelas ruas caminhando,
Rodeados de todo sexo e idade,
Os principais que o Rei buscar mandara
O Capitão da armada que chegara.

43
Mas ele, que do Rei já tem licença
Pera desembarcar, acompanhado
Dos nobres Portugueses, sem detença
Parte, de ricos panos adornado.
Das cores a fermosa diferença
A vista alegra ao povo alvoroçado;
O remo compassado fere frio
Agora o mar, despois o fresco rio.

44
Na praia um regedor do Reino estava
Que, na sua língua, «Catual» se chama,
Rodeado de Naires, que esperava
Com desusada festa o nobre Gama.
Já na terra, nos braços o levava
E num portátil leito ũa rica cama
Lhe oferece em que vá (costume usado),
Que nos ombros dos homens é levado.

45
Destarte o Malabar, destarte o Luso,
Caminham lá pera onde o Rei o espera;
Os outros Portugueses vão ao uso
Que infantaria segue, esquadra fera.
O povo que concorre vai confuso
De ver a gente estranha, e bem quisera
Perguntar; mas, no tempo já passado,
Na Torre de Babel lhe foi vedado.

46
O Gama e o Catual iam falando
Nas cousas que lhe o tempo oferecia;
Monçaide, entr' eles, vai interpretando
As palavras que de ambos entendia.
Assi pela cidade caminhando,
Onde ũa rica fábrica se erguia
De um sumptuoso templo já chegavam,
Pelas portas do qual juntos entravam.

47
Ali estão das Deidades as figuras,
Esculpidas em pau e em pedra fria,
Vários de gestos, vários de pinturas,
A segundo o Demónio lhe fingia;
Vêm-se as abomináveis esculturas,
Qual a Quimera em membros se varia;
Os cristãos olhos, a ver Deus usados
Em forma humana, estão maravilhados.

48
Um, na cabeça cornos esculpidos,
Qual Júpiter Amon em Líbia estava;
Outro, num corpo rostos tinha unidos,
Bem como o antigo Jano se pintava;
Outro, com muitos braços divididos,
A Briareu parece que imitava;
Outro, fronte canina tem de fora,
Qual Anúbis Menfítico se adora.

49
Aqui feita do bárbaro Gentio
A supersticiosa adoração,
Direitos vão, sem outro algum desvio,
Pera onde estava o Rei do povo vão.
Engrossando-se vai da gente o fio
Cos que vêm ver o estranho Capitão.
Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas.

50
Já chegam perto, e não [com] passos lentos,
Dos jardins odoríferos fermosos,
Que em si escondem os régios apousentos,
Altos de torres não, mas sumptuosos;
Edificam-se os nobres seus assentos
Por entre os arvoredos deleitosos:
Assi vivem os Reis daquela gente,
No campo e na cidade juntamente.

51
Pelos portais da cerca a sutileza
Se enxerga da Dedálea facultade,
Em figuras mostrando, por nobreza,
Da Índia a mais remota antiguidade.
Afiguradas vão com tal viveza
As histórias daquela antiga idade,
Que quem delas tiver notícia inteira,
Pela sombra conhece a verdadeira.

52
Estava um grande exército, que pisa
A terra Oriental que o Idaspe lava;
Rege-o um capitão de fronte lisa,
Que com frondentes tirsos pelejava
(Por ele edificada estava Nisa
Nas ribeiras do rio que manava),
Tão próprio que, se ali estiver Semele,
Dirá, por certo, que é seu filho aquele.

53
Mais avante, bebendo, seca o rio
Mui grande multidão da Assíria gente,
Sujeita a feminino senhorio
De ũa tão bela como incontinente.
Ali tem, junto ao lado nunca frio,
Esculpido o feroz ginete ardente
Com quem teria o filho competência.
Amor nefando, bruta incontinência!

54
Daqui mais apartadas, tremulavam
As bandeiras de Grécia gloriosas
(Terceira Monarquia), e sojugavam
Até as águas Gangéticas undosas.
Dum capitão mancebo se guiavam,
De palmas rodeado valerosas,
Que já não de Filipo, mas, sem falta,
De progénie de Júpiter se exalta.

55
Os Portugueses vendo estas memórias,
Dizia o Catual ao Capitão:
– «Tempo cedo virá que outras vitórias
Estas que agora olhais abaterão;
Aqui se escreverão novas histórias
Por gentes estrangeiras que virão;
Que os nossos sábios magos o alcançaram
Quando o tempo futuro especularam.

56
«E diz-lhe mais a mágica ciência
Que, pera se evitar força tamanha,
Não valerá dos homens resistência,
Que contra o Céu não val da gente manha;
Mas também diz que a bélica excelência,
Nas armas e na paz, da gente estranha
Será tal, que será no mundo ouvido
O vencedor por glória do vencido».

57
Assi falando, entravam já na sala
Onde aquele potente Emperador
Nũa camilha jaz, que não se iguala
De outra algũa no preço e no lavor.
No recostado gesto se assinala
Um venerando e próspero senhor;
Um pano de ouro cinge, e na cabeça
De preciosas gemas se adereça.

58
Bem junto dele, um velho reverente,
Cos giolhos no chão, de quando em quando
Lhe dava a verde folha da erva ardente,
Que a seu costume estava ruminando.
Um Brâmene, pessoa preminente,
Pera o Gama vem com passo brando,
Pera que ao grande Príncipe o apresente,
Que diante lhe acena que se assente.

59
Sentado o Gama junto ao rico leito,
Os seus mais afastados, pronto em vista
Estava o Samori no trajo e jeito
Da gente, nunca de antes dele vista.
Lançando a grave voz do sábio peito,
Que grande autoridade logo aquista
Na opinião do Rei e do povo todo,
O Capitão lhe fala deste modo:

60
– «Um grande Rei, de lá das partes onde
O Céu volúbil, com perpétua roda,
Da terra a luz solar co a Terra esconde,
Tingindo, a que deixou, de escura noda,
Ouvindo do rumor que lá responde
O eco, como em ti da Índia toda
O principado está e a majestade,
Vínculo quer contigo de amizade.

61
«E por longos rodeios a ti manda
Por te fazer saber que tudo aquilo
Que sobre o mar, que sobre as terras anda,
De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
E desd' a fria plaga de Gelanda
Até bem donde o Sol não muda o estilo
Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
Tudo tem no seu Reino em grande cópia.

62
«E se queres, com pactos e lianças
De paz e de amizade, sacra e nua,
Comércio consentir das abondanças
Das fazendas da terra sua e tua,
Por que creçam as rendas e abastanças
(Por quem a gente mais trabalha e sua)
De vossos Reinos, será certamente
De ti proveito, e dele glória ingente.

63
«E sendo assi que o nó desta amizade
Entre vós firmemente permaneça,
Estará pronto a toda adversidade
Que por guerra a teu Reino se ofereça,
Com gente, armas e naus, de qualidade
Que por irmão te tenha e te conheça;
E da vontade em ti sobr' isto posta
Me dês a mi certíssima resposta.»

64
Tal embaxada dava o Capitão,
A quem o Rei gentio respondia
Que, em ver embaxadores de nação
Tão remota, grão glória recebia;
Mas neste caso a última tenção
Com os de seu conselho tomaria,
Informando-se certo de quem era
O Rei e a gente e terra que dissera;

65
E que, entanto, podia do trabalho
Passado ir repousar; e em tempo breve
Daria a seu despacho um justo talho,
Com que a seu Rei reposta alegre leve.
Já nisto punha a noite o usado atalho
Às humanas canseiras, por que ceve
De doce sono os membros trabalhados,
Os olhos ocupando, ao ócio dados.

66
Agasalhados foram juntamente
O Gama e Portugueses no apousento
Do nobre Regedor da Índica gente,
Com festas e geral contentamento.
O Catual, no cargo diligente
De seu Rei, tinha já por regimento
Saber da gente estranha donde vinha,
Que costumes, que lei, que terra tinha.

67
Tanto que os ígneos carros do fermoso
Mancebo Délio viu, que a luz renova,
Manda chamar Monçaide, desejoso
De poder-se informar da gente nova.
Já lhe pergunta, pronto e curioso,
Se tem notícia inteira e certa prova
Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha
Que é gente de sua pátria mui vizinha;

68
Que particularmente ali lhe desse
Informação mui larga, pois fazia
Nisso serviço ao Rei, por que soubesse
O que neste negócio se faria.
Monçaide torna: – «Posto que eu quisesse
Dizer-te disto mais, não saberia;
Sòmente sei que é gente lá de Espanha,
Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.

69
«Tem a lei dum Profeta que gerado
Foi sem fazer na carne detrimento
Da mãe, tal que por bafo está aprovado
Do Deus que tem do Mundo o regimento.
O que entre meus antigos é vulgado
Deles, é que o valor sanguinolento
Das armas no seu braço resplandece,
O que em nossos passados se parece.

70
«Porque eles, com virtude sobre-humana,
Os deitaram dos campos abundosos
Do rico Tejo e fresca Guadiana,
Com feitos memoráveis e famosos;
E não contentes inda, e na Africana
Parte, cortando os mares procelosos,
Nos não querem deixar viver seguros,
Tomando-nos cidades e altos muros.

71
«Não menos têm mostrado esforço e manha
Em quaisquer outras guerras que aconteçam,
Ou das gentes belígeras de Espanha,
Ou lá dalguns que do Pirene deçam.
Assi que nunca, enfim, com lança estranha
Se tem que por vencidos se conheçam;
Nem se sabe inda, não, te afirmo e asselo,
Pera estes Anibais nenhum Marcelo.

72
«E s' esta informação não for inteira
Tanto quanto convém, deles pretende
Informar-te, que é gente verdadeira,
A quem mais falsidade enoja e ofende;
Vai ver-lhe a frota, as armas e a maneira
Do fundido metal que tudo rende,
E folgarás de veres a polícia
Portuguesa, na paz e na milícia.»

73
Já com desejos o Idolátra ardia
De ver isto que o Mouro lhe contava;
Manda esquipar batéis, que ir ver queria
Os lenhos em que o Gama navegava.
Ambos partem da praia, a quem seguia
A Naira geração, que o mar coalhava;
À capitaina sobem, forte e bela,
Onde Paulo os recebe a bordo dela.

74
Purpúreos são os toldos, e as bandeiras
Do rico fio são que o bicho gera;
Nelas estão pintadas as guerreiras
Obras que o forte braço já fizera;
Batalhas têm campais aventureiras,
Desafios cruéis, pintura fera,
Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
A tento nela os olhos apacenta.

75
Pelo que vê pergunta; mas o Gama
Lhe pedia primeiro que se assente
E que aquele deleite que tanto ama
A seita Epicureia experimente.
Dos espumantes vasos se derrama
O licor que Noé mostrara à gente;
Mas comer o Gentio não pretende,
Que a seita que seguia lho defende.

76
A trombeta, que, em paz, no pensamento
Imagem faz de guerra, rompe os ares;
Co fogo o diabólico instrumento
Se faz ouvir no fundo lá dos mares.
Tudo o Gentio nota; mas o intento
Mostrava sempre ter nos singulares
Feitos dos homens que, em retrato breve,
A muda poesia ali descreve.

77
Alça-se em pé, co ele o Gama junto,
Coelho de outra parte e o Mauritano;
Os olhos põe no bélico trasunto
De um velho branco, aspeito venerando,
Cujo nome não pode ser defunto
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usança está perfeita;
Um ramo, por insígnia, na direita.

78
Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego,
Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

79
Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavórcios inumanos,
Qual Cánace, que à morte se condena,
Nũa mão sempre a espada e noutra a pena;

80
Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospícios alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo mais que nunca derribado;
Agora às costas escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado
Que não menos milagre foi salvar-se
Que pera o Rei Judaico acrecentar-se.

81
E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.

82
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!

83
Pois logo, em tantos males, é forçado
Que só vosso favor me não faleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça:
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
Que não no empregue em quem o não mereça,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de não ser agradecido.

84
Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
Só por poder com torpes exercícios
Usar mais largamente de seus vícios;

85
Nenhum que use de seu pode bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!

86
Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Pera taxar, com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios que não passa.

87
Aqueles sós direi que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.

 

 


NOTAS

1.3-4
"Que entre as correntes Índicas se encerra / E o Ganges, ...": entre o Indo e o Ganges; "... que no Céu terreno mora": no paraíso terreal.

2.3-6
"... no amigo / Curral de Quem governa o Céu rotundo": é ainda pequena parte dentro do "curral do Senhor", dentro da Igreja Católica; "... não sòmente algum perigo": nenhum perigo; "... conquistar o povo imundo": o povo maometano.

3.4
"A lei da vida eterna dilatais": dilatais a religião cristã.

4.1-8
"Vede’los Alemães, soberbo gado": vede(s) los, ind. pr. do v. ver com a forma antiga lo(s). Soberbo gado, soberbo pelas razões apontadas em 4.3 e 4.8; "Do sucessor de Pedro rebelado": revoltado contra o Pontífice romano; "Novo pastor e nova seita inventa": o soberbo gado inventou novo pastor (Lutero, m. 1546) e nova seita (o protestantismo); "Vede'lo em feias guerras ocupado": vede(s) e lo, pronome referente a gado. As "feias guerras" explicam-se pelo v. 8; "... co cego error": as doutrinas de Lutero; "Mas por sair do jugo soberano": parece que alude à guerra dos protestantes contra Carlos V. Error e superbíssimo são latinismos. Cf. soberbíssimo em X.64.1.

5.1-6
"Vede'lo duro Inglês, que se nomeia": Henrique VIII; "Rei da velha e santíssima Cidade": não parece absolutamente certo que o cruel Henrique VIII se intitulasse "Rei de Jerusalém", a não ser que tal título pertencesse à coroa inglesa; "Nova maneira faz de Cristandade": Henrique VIII estabeleceu a Igreja Anglicana.

6.1-5
"Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei": o sultão da Turquia, que não guardava "a santa Lei" da Jerusalém celeste; "Pois de ti, Galo indino, que direi?': a política de Francisco I (Liga com os Turcos) foi muito censurada na Europa e, nomeadamente, em Portugal. Francisco I disputou ainda a Carlos V a coroa da Alemanha e teve lutas com a Itália.
Ort.: terreste (talvez por influência de celeste).

7.3-7
"E não contra o Cinífio e Nilo rios": o Cinífio é um rio da Líbia, que corre para o Mediterrâneo. Em vez de disputar os senhorios de Cristãos o "Galo indino", deveria disputar o senhorio de Cinífio (Mouros) e do Nilo (Turcos); "Ali se hão-de provar da espada os fios / Em quem quer reprovar da Igrega o canto": o Poeta joga com os verbos provar e reprovar. Continua a censurar a política de Francisco I: Em vez de provar os fios da espada em Mouros e Otomanos, pretende reprovar a pedra fundamental da Igreja (o canto), que deve ser, aqui, o Cristo; "De Carlos, de Luís, o nome e a terra / Herdaste, ...": Carlos Magno e Luís IX (S. Luís).

8.1-6
"Pois que direi daqueles que em delícias": dirige-se o Poeta à Itália; "Gastam as vidas, logram as divícias": as riquezas; "Nascem da tirania inimicícias, / Que o povo forte tem, de si inimigo": FS comenta: "... as quais tiranias ou inimizade procedente delas tem ou torna inimigo de si o povo forte."
Ort.: sumersa (por submersa). Latinismos: divícias e inimicícias.

9.1-6
"Ó míseros Cristãos, ... / Sois os dentes, de Cadmo desparzidos": sois os dentes desparzidos por Cadmo? Tendo de sacrificar a vaca que lhe indicou o local da cidade a construir (Tebas), Cadmo mandou alguns companheiros à Fonte de Ares, guardada por um dragão, que os devorou. Cadmo matou o dragão. Atena apareceu-lhe e aconselhou-o a semear os dentes do animal, o que ele fez, e imediatamente da terra brotaram homens armados. Estes homens eram ameaçadores e Cadmo imaginou lançar pedras para o meio deles. Não vendo quem os feria, acusaram-se recìprocamente e massacraram-se. Ficaram cinco, que ajudaram Cadmo a fundar Tebas; "Sendo todos de um ventre produzidos?": figuradamente, dado que os dentes nasceram na terra; "Não vedes a divina Sepultura / Possuída de Cães ...": Jerusalém ficou na posse do império otomano a partir de 1517. A indignação provocada pela posse do túmulo de Cristo em mãos de "cães" é um tópico da poesia italiana: Petrarca, Ariosto, etc. Sá de Miranda referiu-se também a este assunto na égloga "Célia". V. FS.

10.5-6
"Entre vós nunca deixa a fera Aleto / De samear ...": Alecto é uma das três Fúrias; "... cizânias repugnantes": repugnantes, que lutam umas contra as outras (latinismo).
Ort.: samear (por semear).

11.3-4
"Não vedes que Pactolo e Hermo rios": Pactolo, rio da Lídia; Hermo, rio da Lídia, de que o Pactolo é afluente. Lídia, província da Ásia Menor; "Ambos volvem auríferas areias?": Juvenal: "Et rutila Pactolus volvit arena" (FS). Ariosto fala no "ouro fino" do Pactolo e do Hermo (FS).

12.4-8
"Nos muros de Bizâncio e de Turquia": Bizâncio, Constantinopla; "Dos Cáspios montes e da Cítia fria": povo que habitava ao norte, entre o mar Cáspio e a Tartária. Região indeterminada, assim como indeterminada é a situação dos montes Cáspios; "... que multiplica / Na polícia da vossa Europa rica": a "polícia" europeia. A sua civilização era maculada pela presença dos Turcos, que se difundiam cada vez mais.

13.1-8
"Gregos, Traces, Arménios, Georgianos": continuando a dirigir-se aos divididos povos europeus, o Poeta chama a atenção para os "feitos inumanos" (desumanos) do "povo bruto" (selvagem), que obriga gregos, trácios, arménios e georgianos (ao sul do Cáucaso) a educarem seus filhos nos preceitos do Alcorão. Preceptos (por preceitos) é latinismo.

14.3-7
"Não faltarão Cristãos atrevimentos": ED e JMR escreveram faltaram. Mas o Poeta escreveu andais (v. 2), e não andastes. Os "atrevimentos" dos Portugueses constituem uma actividade permanente (passada, presente e futura); "Na quarta parte nova os campos ara": no Brasil.

15.4
"O furor vão dos ventos repugnantes": como em VI.35.7 e VII.10.6; mas a "fúria" dos "ventos repugnantes" tornou-se em "furor vão" depois que Vénus, com a sua brandura, "enfraqueceu" a fúria dos ventos.
Ort.: despois (por depois); perfias (por porfias); samear (por semear).

16.1
"Tanto que à nova terra se chegaram": "E ho piloto Guzarate disse a Vasco da Gama que aquela gente erão pescadores" (Castanheda, I.XIII). Vasco da Gama estava em Calecute aos 20 de Maio de 1498.

17.1-7
"Além do Indo jaz e aquém do Gange": o Poeta traça os limites da Índia. Para o norte o "Emódio" (Hemodus ou Emodus), parte do Himalaia; envolve-o a oriente e a ocidente o oceano Índico (golfo de Bengala a oriente e mar Arábico a ocidente); "... alguns o vicioso / Mahoma, ...": corrompido (na fé). Cf. em I.2.3 "as terras viciosas".
Ort.: milhor (por melhor).

18.1-8
"Lá bem no grande monte que, cortando": só pode tratar-se do Emódio cavernoso" ou Himalaia, donde saem as fontes do Indo e do Ganges; "... e cercam todo o peso / Do terreno, fazendo-o quersoneso": o Indo vem de norte para ocidente e o Ganges de norte para oriente. Toda a terra da Índia abaixo desses rios até ao Índico forma uma península (quersoneso). "A qual região as correntes destes dous rios per hũa parte, & o grãde Oceano Indico per outra a cercão de maneira, q[~] quasi fica h
ũa chersoneso" (Barros, I.IV.Vll).

19.1-8
"Entre um e o outro rio, ... / Sai da larga terra ũa longa ponta, / Quási piramidal, ...": desde as margens dos dois grandes rios a terra da Índia vem-se estreitando até tomar quase a forma de pirâmide, cuja ponta confronta com a ilha de Ceilão; "... o rumor antigo conta / Que os vizinhos, ... / Do cheiro se mantêm das finas flores": na composição Querendo escrever um dia o Poeta refere a lenda nestes termos:

Escrevem vários autores,
que, junto da clara fonte
do Ganges, os moradores
vivem do cheiro das flores
que nacem naquele monte.
Se os sentidos podem dar
mantimento ao viver,
não é, logo, d' espantar,
se estes vivem de cheirar,
que viv'eu só de vos ver.

(Rimas, mihi, p. 8)

"ad extremos fines Indiae ab oriente circa fontem Gangis Astomorum gentem sine ore, corpore toto hirtam, vestiri frondium lanugine, halitu tantum viventem et odore quem naribus trahant; nullum illis cibum nullumque potum, radicum tantum florumque varios odores et silvestrium malorum, quae secum portant longiore itinere ne desit olfactus» (Plínio, NH, VII.25).

20.3-7
"Os Deliis, os Patames ...": os Deliis, os moradores de Deli; os Patanes, de Patna; "Decanis, Oriás, ...": Decanis, os de Decão; Oriás, povos ao longo do rio Ganges; "... e a terra de Bengala": a leste. Junto ao gangeticus sinus dos Antigos. Cap. Calcutá.

21.1-8
"O Reino de Cambaia belicoso": "Guzarate a que cõmũmente chamamos Cambaia" (Barros, I.IV.VII). Fica no golfo do mesmo nome; "(Dizem que foi de Poro, Rei potente)": Poro, rei do Panjabe, e não de Cambaia, vencido por Alexandre Magno; "O Reino de Narsinga, poderoso": MC diz: "O Reyno de Narsinga chamado por outro nome Bisnagà, da grandissima cidade Bisnaga cabeça, & Metropoli do Reyno, pelo concurso & tratto de gente, & pela abundância de todas as cousas necessárias ..."; "Um monte alto, que corre longamente ...": é a cadeia do Gate, que corre de norte a sul pela costa do mar e sempre à vista dele até ir acabar no cabo Comoti. "Entre esta serra Gate & o mar", diz MC, "está uma cinta de terra que será larga de dez Léguas (mais aqui, menos noutro lugar), a qual se chama Malabar e onde está situada a cidade Calecut." "Este Gate", acrescenta MC, "serve aos moradores do Malabar de muro & defensão contra os moradores do Reyno Bisnagà (ou Canará)." Canará, reino ao sul do Decão.

22.1-3
"Do pé do qual, pequena quantidade": a pequena distância; "Se estende ũa fralda estreita ...": é a faixa de terra, "chã e alagadiça", entre o pé da "corda de montes" e a costa do mar (v. Barros, I.IV.VII).

23.1-6
"Chegada a frota ao rico senhorio / Um Português, mandado, logo parte": 'Surto Vasco da Gama fora do arrecife de Calicut nas mesmas almadias que ho ali trouverão mandou hũ dos degradados q[~] levava a Calicut" (Castanheda, I.XV); a não vista arte": o singular aspecto.

24.1-4
"Entre a gente que a vê-lo concorria, / Se chega um Mahometa, ...": Monçaide, natural do reino de Tunes. Castanheda diz que foi o degradado que entrou em casa de Monçaide (ou Bõtaibo); "Lá onde fora Anteu obedecido": v. III.77.4.

27.3-6
"Na sua pobre casa repousasse / E do manjar da terra comeria; / E despois que se um pouco recreasse, / Co ele pera a armada tornaria". "E agasalhou ho, & mandoulhe dar de comer hũs bolos de farinha de trigo, a que os Malabares chamão apas, & coeles mel. E despois que comeo, disselhe Bõtaibo q[~] se tornasse pera as naos, & q[~] iria coele a ver Vasco da gama, & assi ho fez" (Castanheda, I.XV).

29.1-7
"O Capitão o abraça, ...": "& Vasco da gama ho abraçou, & o fez assentar a par de si (Castanheda, I.XV); "... em cabo ledo": extremamente ledo; "Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo": o Poeta fala de Orfeu, marido, e não amante ("amante" no sentido de marido apaixonado), de Eurídice, que cantava de tal maneira que o arvoredo se juntava para o ouvir em Ródope (montanha da Trácia); "... donzela / Eurídice ...": o mesmo sentido que em III.127.2 e III.134.6.

30.6
Ort.: longinco (por longínquo).

31-3-7
"Por isso só ...": só por isso; "Diverso povo, rico e prosperado / De ouro luzente ...": povos diversos.
Ort.: imigos (por inimigos).

32.1-7
"Esta província, cujo porto agora / Tomado tendes ...": o Monçaide conta a história de Saramá Perimal, que vem em Barros, I.IX.III. Castanheda conta a história, mas chama o rei Sarranaperima (v. I.XIII); "Saramá Perimal foi derradeiro": devia estar "o derradeiro" se a métrica o consentisse.

33.2-6
"De lá do seio Arábico ...": mar Roxo; "... de sábios e eloquentes": de tal modo sábios e eloquentes.
Ort.: pros[s]upôs (por pressupôs).

34.1-4
"Naus arma e nelas mete, curioso": cuidadoso (latinismo); "Pera ir nelas a ser religioso / Onde o Profeta jaz que a Lei pubrica". O Perimal determinou de ir morrer na casa de Meca (Castanheda, I.XIII).
Ort.: pubrica (por publica).

35.2
"A qual Chale, a qual a Ilha da Pimenta": foi a primeira acção guerreira do Poeta na Índia, como diz na Elegia I:

       Que ua ilha que o rei de Porcá tem,
que o rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lhe, e sucedeu-nos bem.
...................................................
       Era a ilha com águas alagada,
de modo que se andava em almadias;
enfim, outra Veneza trasladada.

(Rimas, mihi, p. 236)

Chale, povoação a duas léguas de Calecute.

35.4
"E os mais, ...": lugares?

36.4-6
"... acabe e ande": posterius prius: ande e acabe; "E daqui fica o nome de potente / Çamori, mais que todos dino e grande": "esta ainda que pequena em termo [Calecute], quis dar a hum sobrinho a q[~] elle maior bẽ queria, & que de menino lhe servira de page cõ hũ novo nome de potencia no secular sobre todolos outros, chamandolhe Çamorij, que entre elles quer dizer o que acerca de nòs emperador" (Barros, I.IX.III).
Ort.: dino (por digno).

37.1-2
"A Lei da gente toda, rica e pobre, / De fábulas compostas se imagina": parece composta de fábulas, parece fabulosa.
Ort.: mesturar (por misturar).

38.5-7
"Pera os Naires é, certo, grande vício / Destes serem tocados; ...": tocados dos poleás, que é a raça ínfima: "E os vilãos sam obrigados quando vão polas estradas de ir bradando que vão, porque se os Naires vierem lhes digão que se afastem do caminho: e se ho assi nã fazem matãnos os Naires" (Castanheda, I.XIIII); "... de tal sorte / Que, quando algum se toca porventura": que quando algum é tocado por acaso.

39.1-2
"Desta sorte o Judaico povo antigo / Não tocava na gente de Samaria": "Veio uma mulher de Samaria a tirar água. Disse-lhe Jesus: – 'Dá-me de beber [...]' Disse-lhe logo aquela mulher samaritana: – 'Como, tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?', porque os judeus não comunicam com os samaritanos." ("S. João", IV.7-9); "Os Naires sós são dados ao perigo / Das armas; ...": "A gẽte de peleja q[~] tem el Rey de Calicut, & assi os reys do Malabar sam Naires, q[~] sam todos fidalgos, & não tem outro officio se não pelejar quando he necessário." (Castanheda, I.XIIII).

40.4
"Dum que primeiro pôs nome à ciência": Pitágoras (do século VI a. C.), que à sabedoria chamou filosofia. O Poeta diz que os Brâmenes observam os preceitos em vigor entre os pitagóricos, um dos quais era a abstinência de carnes.
Ort.: preminência (por preeminência).

41.1-7
"Gerais são as mulheres, mas sòmente / Pera os da geração de seus maridos": "os quais sendo do maes nobre sangue de todo o gentio na opinião delles, podesse chamar filhos do vulgo: ca não lhe sabem certo pae, por as molheres dos Naires serem commuas aos de suas dignidades. Porem esta lei não se guarda acerca dos mui nobres, somente entre o povo delles: & he tão geral que despois que hua molher deste sangue dos Naires he de idade de dez annos em que se ha por apta de ter maridos ...: pode dar entrada em sua casa a quantos Naires quiser, & tambem aos Brammanes que são os seus religiosos" (Barros, I.LIX.III); "A terra é grossa em trato, de grande comércio.

43.1-8
"Mas ele, que do Rei já tem licença / Pera desembarcar, ...": "Estando neste porto derãlhe hu recado do Catual de Calicut, que he como corregedor da corte, que ele era vindo a Pandarane, com outros homes nobres por mandado del rey pera ho acompanharem ate Calicut q[~] podia desembarcar quãdo quisesse" (Castanheda, I.XVI); "O remo compassado fere frio": com serenidade, devagar.
Ort.: fermosa (por formosa); despois (por depois).

44.1-7
"Na praia um regedor do Reino estava": "embarcou-se Vasco da Gama com os doze q – [falta o ~ no q]digo ... que sempre forão tangẽdo – ate ele chegar a terra õde ho Catual ho estava esperando acompanhado de duzentos Naires" (Castanheda, I.XVI); "E num portátil leito ũa rica cama / Lhe oferece ...": andor; "& despois de recebido foy tomado em hũ andor que lhe mandava el Rey de Calicut" (Castanheda, I.XVI).

45.8
"Na Torre de Babel lhe foi vedado": o povo não entendia os Portugueses, por motivo da confusão de línguas na Torre de Babel.

46.5-6
"Assi pela cidade caminhando": o Poeta suprime a jornada pelo rio depois que Vasco da Gama desembarcou e comeu em terra. Embarcando-se numa jangada, tornou a desembarcar mais adiante e a retomar o andor até que o catual o levou a um pagode dos seus ídolos; "Onde ũa rica fábrica se erguia": era o pagode, tomado à primeira vista por um templo cristão. "E parecedo assi a Vasco da Gama, assentou-se em giolhos, & os nossos coele & fizerão oração" a uma imagem que diziam de Santa Maria (Castanheda, I.XVI),

47.1-6
"Ali estão das Deidades as figuras": "E indo por esta igreja virão muytas images [falta o ~ no e de images] pintadas pelas paredes, & delas tinhão tamanhos dentes que lhe sayão da boca hũa polegada, & outras tinhão quatro braços & eram feas do rosto que pareciãm diabos: o q[~] pos algũa duvida nos nossos de crerem quee era igreja de Christãos" (Castanheda, I.XVI); "Vários, de gestos ...": por várias. O Poeta teve em mente deuses; "Qual a Quimera em membros se varia": monstro que vomita fogo de três cabeças, metade leão, metade cabra e a cauda de um dragão.

48.1-2
"Um, na cabeça cornos esculpidos, / Qual Júpiter Amon era Líbia estava":

Duxque gregis "dixit" fit Jupiter, unde recurvis
Nunc quoque formatus Libys est cum cornibus Ammon

(Ov., M, V.327-328)

48-3-8
"Outro, num corpo rostos tinha unidos, / Bem como o antigo Jano se pintava": Jano, um dos mais antigos deuses de Roma, que se representava provido de dois rostos opostos, um olhando para diante e o outro para trás; "Outro, ... / A Briareu parece que imitava": Briareu ou Egéon, gigante de cem braços; 'Qual Anúbis Menfítico se adora": deus egípcio que acompanhava os mortos para as regiões infernais. Menfítico, de Mênfis.

49.1-2
"Aqui feita do bárbaro Gentio / A supersticiosa adoração": "E ho Catual & os seus como forão diãte da capela deitarãse no chão de bruços com as mãos por diãte, & isto tres vezes, & despois levãtarãse & fizerão oração ẽ pé." (Castanheda, I.XVI).

50.1-5
"Já chegam perto, e não [com] passos lentos / Dos jardins odoríferos fermosos": "Os paços tirãdo serẽ terreos erã muyto grãdes, & parecião ser hũ fermoso edificio, polos muytos arvoredos q[~] parecião perãtre as casas, & estas erão de muytos & fermosos jardins q[~] avia dentro, ẽ q[~] avia muytas froles & ervas cheirosas, & tanques dagoa pera recreação del rey" (Castanheda, I.XVII); "Edificam-se os nobres seus assentos": estão edificados os seus assentos nobres.
Ort.: fermosos (por formosos); apousentos (por aposentos).

51.1-8
"Pelos portais da cerca a subtileza / Se enxerga da Dedálea facultade": enxerga-se pelos portais da cerca o engenho e o talento de Dédalo; "Em figuras mostrando, por nobreza": pela nobreza delas; "Pela sombra conhece a verdadeira": pela imagem.
Ort.: facultade, por influência do latim facultas, tatis; sutileza (por subtileza).

52.1-4
"Estava um grande exército, que pisa / A terra Oriental ...": refere-se à expedição de Baco à Índia; "... que o Hidaspe lava": grande rio da Índia, afluente do Indo; "Rege-o um capitão de fronte lisa": ainda jovem; "Que com frondentes tirsos pelejava": o tirso, bastão encimado por uma pinha e enfeitado com folhas de hera ou pâmpanos de videira. O tirso é atributo de Baco.

52.5
"Por ele edificada estava Nisa": "Alexandre penetrou na região que se estende entre o Cofen e o Indo, onde se encontra Nisa, fundada por Baco, vencedor dos Índios. Os habitantes de Nisa fizeram a Alexandre este discurso: 'Os Níseos te suplicam, ó Rei, que, em respeito a Dioniso, lhes permitas que vivam livres e autónomos, porque o mesmo Baco, ao regressar à Grécia depois da gloriosa conquista da Índia, fundou com os aguerridos companheiros da sua viagem esta cidade, monumento perpétuo de seus triunfos [...] Baco, em memória da sua ama de leite, chamou Nisa a esta cidade, Niseia a toda a comarca e ao monte que domina os seus baluartes, Mero para recordar a sua mítica geração no músculo de Júpiter [... ] Enfim, para te provar que Baco foi o nosso fundador, citar-te-ei um só facto: a hera, desconhecida no resto da Índia, cresce abundantemente em nossa região'" (Arriano, História das Expedições de Alexandre, V.I). V. ainda Plínio, VI.79, e Pompónio Mela, III.VII.51-52. Na Eneida, VI.804-805, diz Virgílio:

nec qui pampineis victor iuga flectit babenis
Liber, agens ceiso Nysac de uertice tigris.

52.6-7
"Nas ribeiras do rio que manava": nas margens, certamente do Indo; "Tão próprio que, se ali estiver Semele": tão parecido. Sémele, mãe de Baco.

53.3-5
"Sujeita a feminino senhorio / De ũa tão bela como incontinente": "equum adamatum a Samiramide usque in coitum Juba auctor est" (Plínio, HN, VIII.155-156). "Ad postremum cum concubitum filii petisset [Semíramis], ab eodem interfecta est" (Just., 12), cit. por ED; "Ali tem, junto ao lado nunca frio": junto ao coração.

54-1-6
"Daqui mais apartadas, tremulavam / As bandeiras da Grécia gloriosas / (Terceira Monarquia), ...": tremulavam as bandeiras do império greco-macedónio; "... e sojugavam / Até as águas Gangéticas undosas": e dominavam até as regiões banhadas pelas águas agitadas do Ganges; "Dum capitão mancebo se guiavam": (as bandeiras) eram guiadas por um capitão mancebo, Alexandre, falecido com 32 anos; "De palmas rodeado valerosas": rodeado de palmas que consagram o seu valor.
Ort.: sojugavam (por subjugavam); valerosas (por valorosas). O Poeta escreveu tremolavam.

54.7
"Que já não de Filipo, ...": filho de Filipe, Alexandre quis passar por filho de Ámon. "Depois quis Alexandre visitar o templo de Ámon, na Líbia, para consultar o seu oráculo, que passava por infalível e ao qual haviam acudido também Perseu e Hércules; aquele, enviado por Polidectes contra a Górgona; este, ao caminhar para a Líbia contra Anteu e para o Egipto contra Busíris. Alexandre pretendia rivalizar em glória com estes heróis, de quem descendia, e atribuir o seu nascimento a Ámon, já que as fábulas atribuíam a Júpiter a paternidade de Hércules e de Perseu" (Arriano, História das Expedições de Alexandre, III.III).

55.1-7
"Os Portugueses vendo estas memórias, / Dizia o Catual ...": enquanto os Portugueses viam estas memórias; "Tempo cedo virá que outras vitórias / Estas ...": tempo breve virá que outras vitórias abaterão estas que agora olhais; "Que os nossos sábios magos ...": pròpriamente, os sacerdotes da religião zoroástrica; mágicos. Especularam, latinismo (por perscrutaram).

57.1-4
"Assi falando, entravam já na sala / Onde aquele potente Emperador / Nũa camilha jaz, que não se iguala / De outra ...": "De junto do qual se alevantou hu home de grande idade, que era o seu Brammane maior, vistido huas vestiduras brancas representando nellas & em sua idade & continência ser homem religioso: & chegado ao meio da casa tomou Vasco da Gama pela mão & o foi appresentar ao Camorij. O qual estava no cabo da casa lançado em hũa camilha cuberta de panos de seda, posto em hum leito a q[~] elles chamão catel: & elle vestido com hũ pano d' algodão burnido com algũas rosas d' ouro batido semeadas per elle, & na cabeça hua carapuça de brocado alta a maneira de mitra cerrada, chea de perlas & pedraria, & per os braços & pernas q[~] estavão descobertos tinha braceletes d' ouro & pedraria. E a hũa ilharga deste leito em q[~] jazia com a cabeça posta sobre hũa almofada de seda rasa com lavores d' ouro a maneira de broslado, estava hum homem q[~] parecia em trajo & officio dos maes principaes da terra: o qual tinha na mão hũ prato d' ouro com folhas de betelle q[~] elles usão remoer por lhe confortar o estomago." (Barros, I.IV.VIII.)

57.3-8
"... que não se iguala": que não é igualada por outra; "No recostado gesto se assinala": na maneira como se recosta; "... gemas ...": pedras preciosas.

58.3
"Lhe dava a verde folha da erva ardente": o bétele (v. Castanheda, I.XVII).
Ort.: giolhos (por joelhos); preminente (por preeminente).

59.1-2
"Sentado o Gama junto ao rico leito": o Poeta simplifica a visita. A entrevista não se verificou na mesma sala porque Vasco da Gama a isso se opôs. A ela poucos assistiram, ficando as restantes pessoas na sala ao lado (v. Castanheda, I.XVII). No ponto de vista diplomático a entrevista não foi um êxito; "... pronto em vista": olhando atentamente.
Ort.: aquista, ant. v. aquistar (por adquirir).

60.1
"Um grande rei, de lá das partes onde": o discurso do Gama no poema é apenas uma súmula do que foi realmente pronunciado.

60.2
"O Céu volúbil, com perpétua roda, / Da terra a luz solar com a Terra esconde": O Céu volúbil é o primeiro móbil. Primeiro, terra designa a terra firme, um dos quatro elementos, e, depois, terra designa todo o globo terráqueo. "Portugal fica lá nas partes onde o céu volúbil [primeiro móbil], com o seu rodar perpétuo, esconde da terra-firme a luz solar com a terra-globo, cuja sombra tinge de escura nódoa a terra que a luz do Sol deixou; e esta é a terra-continente, porque o globo terráqueo nunca a luz solar deixa de iluminar, por um ou outro lado. Quando, pois, em Portugal anoitece, estende-se a noite por todo o continente, o que resulta da sua situação no extremo ocidente; a escura nódoa, que com o movimento diurno do Sol se vem alastrando para ocidente sobre a Europa, acaba por cobri-la inteiramente, quando chega à praia ocidental lusitana." (LPS, AL, p. 69.)
Ort.: noda (por nódoa).

60.5
"Ouvindo do rumor que lá responde / O eco, ...": ouvindo do rumor que lá ecoa.

61.5-7
"E desd' a fria plaga da Gelanda": província holandesa, hoje chamada Zelanda ou Zelândia; "Até bem donde o Sol não muda o estilo / Nos dias, sobre a gente de Etiópia": até ao Equador, onde os dias são iguais às noites.

62.2-6
"... amizade, sacra e nua": sagrada e franca; "Por quem ...": quem referido a coisas.
Ort.: abondanças (por abundâncias).

63.1-6
"E sendo assi ...": e se assim for; "... de qualidade / Que ...": de modo que.

64.5
"... a última tenção": a última resolução.
Ort.: embaxada e embaxadores (por embaixada e embaixadores).

65.3
"... um justo talho": uma justa conclusão.

66.1-3
"Agasalhados foram juntamente": "& [ho Catual] levouho a sua casa pera descansar hũ pouco ...: & assi foy ate chegar à pousada onde aqueles que ho acompanhavão ho deixarão bẽ apousentado, & ja os seus tinham todos seu fato. Aqui descansou aquela noyte com muyto prazer de ver tão bõ começo naquela negoceação." (Castanheda, I.XVIII); "Do nobre Regedor da Índica gente": o Catual.
Ort.: apousento (por aposento).

67.1-5
"Tanto que os ígneos carros do fermoso / Mancebo Délio viu, ...": O suj. é o Catual; o mancebo Délio é Apolo, nascido na ilha de Delos; "... pronto e curioso": rápido e curioso.

68.1
"Que particularmente ...": em pormenor.

69.3-5
"Da mãe, ...": liga-se a "carne"; "... tal que por bafo está aprovado / Do Deus que tem do Mundo o regimento": por obra e graça do Espírito Santo; "O que entre meus antigos he vulgado". Divulgado, notório. Monçaide reconduz a questão para o valor guerreiro dos Portugueses.

70.1-8
"Porque eles, com virtude sobre-humana": com extraordinária coragem; "Os deitaram dos campos abundosos / Do rico Tejo e fresca Guadiana": dos campos muito férteis. Fresca Guadiana na edição princeps; "E não contentes inda, na Africana / Parte ...": evoca Monçaide as conquistas do Norte de África.

71-1-8
"Não menos têm mostrado esforço e manha": destreza; "Ou lá dalguns que do Pirene deçam": Pirene está por Pirenéus. Não é claro o sentido destes versos. MC lembra os Catalães, Biscainhos e Navarros, que vieram ajudar Castela, mas é pouco provável; "Se tem ...": consta; "... te afirmo e asselo": reforço da afirmativa; "Pera estes Anibáis nenhum Marcelo": os Portugueses não encontraram ainda quem os derrotasse, como sucedeu a Aníbal, derrotado (216 a. C.) pelo general Marco Cláudio Marcelo, em Nola (Campânia). V. T. Lívio, XXIII.XV-XVII.
Ort.: deçam (por desçam).

72.5-8
"... e a maneira / Do fundido metal que tudo rende": a artilharia, que tudo submete; "E folgarás de ver a polícia / Portuguesa, ...": a sua ordem e organização.

73.1-6
"Já com desejos o Idolátra ardia": o Catual. A visita do Catual às naus é ficção poética e prepara a descrição das bandeiras do canto seguinte; "Manda esquipar batéis, ...": manda preparar e guarnecer com tripulantes; "Ambos partem ..."; o Catual e Monçaide; "A Naira geração, que o mar coalhava": Vasco da Gama estava em terra. Esta saída de Vasco da Gama não se verificou sem ordens rigorosas a quem ficava a substituí-lo, seu irmão Paulo da Gama: "& que ficasse na frota por capitão mór seu irmão, & que durando sua ausencia não recolhesse nela pessoa algua, & todos os que fossem a bordo estevessem e suas almadias" (Castanheda, I.XVI). Toda esta cena é, pois, imaginada pelo Poeta.

74.1-8
"... e as bandeiras / Do rico fio são que o bicho gera": de seda; "Obras que o forte braço já fizera": Paulo da Gama vai mostrar ao Catual imagens de algumas notáveis figuras da história de Portugal e de algumas das suas proezas; "A tento nela os olhos apacenta": com atenção nela (na "pintura fera") os olhos recreia.
Ort.: apacenta (por apascenta).

75.1-6
"... mas o Gama": Paulo da Gama; "E que aquele deleite que tanto ama / A seita Epicureia ...": o Poeta reduz a doutrina de Epicuro ao prazer de comer e beber; "O licor que Noé mostrara à gente": o vinho. Depois do Dilúvio, Noé entregou-se à agricultura e plantou a vinha.

76.3-8
"... o diabó1ico instrumento": a artilharia; "A muda poesia ...": a pintura.

77.1-5
"Alça-se em pé, ...": o Catual ergue-se para escutar Paulo da Gama. A seu lado, Paulo da Gama, Nicolau Coelho e Monçaide. Na edição princeps, os Gamas, por lapso; "... bélico trasunto": imagem guerreira; "... aspeito venerando": lapso do Poeta. Precisava de uma palavra a rimar com Mauritano e humano. Talvez soberano; "Cujo nome não pode ser defunto": esquecido.
Ort.: aspeito (por aspecto).

78.1
"Um ramo na mão tinha ...": esta frase é retomada em VIII.1.3. O Poeta aproveita o final do Canto VII para fazer um apelo às Ninfas e mostrar os seus agravos dos homens.

79.3-7
"A Fortuna me traz peregrinando": é o "porque ficasse a vida Pelo mundo em pedaços repartida" da Canção IX; "Qual Cánace, que à morte se condena": filha de Éolo. Suicidou-se a conselho do próprio pai, por ter cometido incesto com um irmão. Quando estava para fazê-lo escreve uma carta "com a pena na mão direita e a espada desembainhada na outra". Ov., H, XI.3: "Dextra tenet calamum, strictum tenet altera ferrum."

80.5-8
"Agora às costas escapando a vida": escapando a vida às costas (do mar). Referência ao seu naufrágio no mar da China pelos fins de 1558; "Que pera o Rei Judaico acrecentar-se": Ezequias, rei de Judá, sabendo por Isaías que ia morrer, rogou a Deus mais quinze anos de vida ("Isaías", XXXVIII).
Ort.: acrecentar-se (por acrescentar-se).

82.6-7
"Pera espertar engenhos curiosos, / Pera porem as cousas em memória": para espertar engenhos curiosos que ponham as coisas em memória.
Ort.: valoresos (por valorosos).

84.1-8
"... que a fama desse": em vez de "a fama ", por causa da rima; "Imigo da divina e humana Lei": imigo depende de A quem do v. 2; "Nenhum ambicioso ...": não cantarei nenhum ambicioso que queira subir a grandes cargos só para poder usar mais largamente de seus vícios com torpes exercícios.
Ort.: imigo (por inimigo).

85.3-7
"... por comprazer ao vulgo errante": inconstante, versátil; "Se muda em mais figuras que Proteio": Proteio por causa da rima (v. I.19.1-8); "Nem, Camenas, ...": as Camenas foram de muito cedo assimiladas às Musas; "Quem, com hábito honesto e grave, veio": AP e PAP, em DL, dão a "hábito" os significados de "costume" e "aspecto"; "... no ofício novo": novo no ofício.

86.5-6
"... com pouco experto peito": com inexperiente conhecimento; "... e cuida que é prudente": e cuida que é competente.
Ort.: rapace (por rapaz=rapinante).

87.3-6
"Onde, ...": com o que; "Me dobrarão a fúria concedida": v, I.5.1.