Os Lusíadas - CantoIII

 

 

 

 


Os Lusíadas

 

 


Canto III

 

1
AGORA tu, Calíope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama;
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assi o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
Te negue o amor devido, como soe.

2
Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que já vejo
Banhar-me Apolo na água soberana;
Senão direi que tens algum receio
Que se escureça o teu querido Orfeio.

3
Prontos estavam todos escuitando
O que o sublime Gama contaria,
Quando, despois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assi dizia:
– «Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
De minha gente a grão genealogia;
Não me mandas contar estranha história,
Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

4
«Que outrem possa louvar esforço alheio,
Cousa é que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus próprios, arreceio
Que louvor tão suspeito mal me esteja;
E, pera dizer tudo, temo e creio
Que qualquer longo tempo curto seja;
Mas, pois o mandas, tudo se te deve;
Irei contra o que devo, e serei breve.

5
«Além disso, o que a tudo enfim me obriga
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordem leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Despois direi da sanguinosa guerra.

6
«Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Meta Setentrional do Sol luzente,
E aquela que por fria se arreceia
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Pela parte do Arcturo e do Ocidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E, pela Austral, o Mar Mediterrano.

7
«Da parte donde o dia vem nascendo,
Com Ásia se avizinha; mas o rio
Que dos Montes Rifeios vai correndo
Na alagoa Meótis, curvo e frio,
As divide, e o mar que, fero e horrendo,
Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tróia triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.

8
«Lá onde mais debaxo está do Pólo,
Os Montes Hiperbóreos aparecem
E aqueles onde sempre sopra Eolo,
E co nome dos sopros se ennobrecem.
Aqui tão pouca força têm de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem,
Que a neve está contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

9
«Aqui dos Citas grande quantidade
Vivem, que antigamente grande guerra
Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Cos que tinham antão a Egípcia terra;
Mas quem tão fora estava da verdade
(Já que o juízo humano tanto erra),
Pera que do mais certo se informara,
Ao campo Damasceno o perguntara.

10
«Agora nestas partes se nomeia
A Lápia fria, a inculta Noruega,
Escandinávia Ilha, que se arreia
Das vitórias que Itália não lhe nega.
Aqui, enquanto as águas não refreia
O congelado Inverno, se navega
Um braço do Sarmático Oceano
Pelo Brús[s]io, Suécio e frio Dano.

11
«Entre este Mar e o Tánais vive estranha
Gente, Rutenos, Moscos e Livónios,
Sármatas outro tempo; e na montanha
Hircínia os Marcomanos são Polónios.
Sujeitos ao Império de Alemanha
São Saxones, Boémios e Panónios
E outras várias nações, que o Reno frio
Lava, e o Danúbio, Amásis e Álbis rio.

12
«Entre o remoto Istro e o claro Estreito
Aonde Hele deixou, co nome, a vida,
Estão os Traces de robusto peito,
Do fero Marte pátria tão querida,
Onde, co Hemo, o Ródope sujeito
Ao Otomano está, que sometida
Bizâncio tem a seu serviço indino:
– Boa injúria do grande Costantino!

13
«Logo de Macedónia estão as gentes,
A quem lava do Áxio a água fria;
E vós também, ó terras excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juízos de alta fantasia,
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
E não menos por armas, que por letras.

14
«Logo os Dálmatas vivem; e no seio
Onde Antenor já muros levantou,
A soberba Veneza está no meio
Das águas, – que tão baxa começou.
Da terra um braço vem ao mar, que, cheio
De esforço, nações várias sujeitou;
Braço forte, de gente sublimada
Não menos nos engenhos que na espada.

15
«Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Cos muros naturais por outra parte;
Pelo meio o divide o Apenino,
Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
Mas, despois que o Porteiro tem divino,
Perdendo o esforço veio e bélica arte;
Pobre está já de antiga potestade.
Tanto Deus se contenta de humildade!

16
«Gália ali se verá, que nomeada
Cos Cesáreos triunfos foi no mundo;
Que do Séquana e Ródano é regada
E do Garuna frio e Reno fundo.
Logo os montes da Ninfa sepultada,
Pirene, se alevantam, que, segundo
Antiguidades contam, quando arderam,
Rios de ouro e de prata antão correram.

17
«Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poderá, com força ou manha,
A Fortuna inquieta pôr-lhe noda
Que lha não tire o esforço e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.

18
«Com Tingitânia entesta; e ali parece
Que quer fechar o Mar Mediterrano
Onde o sabido Estreito se ennobrece
Co extremo trabalho do Tebano.
Com nações diferentes se engrandece,
Cercadas com as ondas do Oceano;
Todas de tal nobreza e tal valor
Que qualquer delas cuida que é milhor.

19
«Tem o Tarragonês, que se fez claro
Sujeitando Parténope inquieta;
O Navarro, as Astúrias, que reparo
Já foram contra a gente Mahometa;
Tem o Galego cauto e o grande e raro
Castelhano, a quem fez o seu Planeta
Restituidor de Espanha e senhor dela;
Bétis, Lião, Granada, com Castela.

20
«Eis aqui, quási cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

21
«Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela antão os íncolas primeiros.

22
«Desta o pastor nasceu que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
Esta, o Velho que os filhos próprios come,
Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre; e foi destarte:

23
«Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que, por armas sanguinas, força e manha,
A muitos fez perder a vida e a terra.
Voando deste Rei a fama estranha
Do Herculano Calpe à Cáspia Serra,
Muitos, pera na guerra esclarecer-se,
Vinham a ele e à morte oferecer-se.

24
«E com um amor intrínseco acendidos
Da Fé, mais que das honras populares,
Eram de várias terras conduzidos,
Deixando a pátria amada e próprios lares.
Despois que em feitos altos e subidos
Se mostraram nas armas singulares,
Quis o famoso Afonso que obras tais
Levassem prémio dino e dões iguais.

25
«Destes Anrique (dizem que segundo
Filho de um Rei de Hungria exprimentado)
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, pera mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

26
«Este, despois que contra os descendentes
Da escrava Agar vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes,
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

27
«Já tinha vindo Anrique da conquista
Da cidade Hierosólima sagrada,
E do Jordão a areia tinha vista,
Que viu de Deus a carne em si lavada
(Que, não tendo Gotfredo a quem resista,
Despois de ter judeia sojugada,
Muitos que nestas guerras o ajudaram
Pera seus senhorios se tornaram);

28
«Quando, chegado ao fim de sua idade,
O forte e famoso Húngaro estremado,
Forçado da fatal necessidade,
O esprito deu a Quem lho tinha dado.
Ficava o filho em tenra mocidade,
Em quem o pai deixava seu traslado,
Que do mundo os mais fortes igualava:
Que de tal pai tal filho se esperava.

29
«Mas o velho rumor – não sei se errado,
Que em tanta antiguidade não há certeza –
Conta que a mãe, tomando todo o estado,
Do segundo himeneu não se despreza.
O filho órfão deixava deserdado,
Dizendo que nas terras a grandeza
Do senhorio todo só sua era,
Porque, pera casar, seu pai lhas dera.

30
«Mas o Príncipe Afonso (que destarte
Se chamava, do avô tomando o nome),
Vendo-se em suas terras não ter parte,
Que a mãe com seu marido as manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
Imagina consigo como as tome:
Revolvidas as causas no conceito,
Ao propósito firme segue o efeito.

31
«De Guimarães o campo se tingia
Co sangue próprio da intestina guerra,
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
Co ele posta em campo já se via;
E não vê a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.

32
«Ó Progne crua, o mágica Medeia!
Se em vossos próprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhai que inda Teresa peca mais!
Incontinência má, cobiça feia,
São as causas deste erro principais:
Cila, por ũa, mata o velho pai;
Esta, por ambas, contra o filho vai.

33
«Mas já o Príncipe claro o vencimento
Do padrasto e da inica mãe levava;
Já lhe obedece a terra, num momento,
Que primeiro contra ele pelejava;
Porém, vencido de ira o entendimento,
A mãe em ferros ásperos atava;
Mas de Deus foi vingada em tempo breve.
Tanta veneração aos pais se deve!

34
«Eis se ajunta o soberbo Castelhano
Pera vingar a injúria de Teresa,
Contra o, tão raro em gente, Lusitano,
A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
Em batalha cruel, o peito humano,
Ajudado da Angélica defesa,
Não só contra tal fúria se sustenta,
Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

35
«Não passa muito tempo, quando o forte
Príncipe em Guimarães está cercado
De infinito poder, que desta sorte
Foi refazer-se o imigo magoado;
Mas, com se oferecer à dura morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que, de outra arte, pudera ser perdido,
Segundo estava mal apercebido.

36
«Mas o leal vassalo, conhecendo
Que seu senhor não tinha resistência,
Se vai ao Castelhano, prometendo
Que ele faria dar-lhe obediência.
Levanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promessa e consciência
De Egas Moniz; mas não consente o peito
Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

37
«Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano já aguardava
Que o Príncipe, a seu mando sometido,
Lhe desse a obediência que esperava.
Vendo Egas que ficava fementido
O que dele Castela não cuidava,
Determina de dar a doce vida
A troco da palavra mal cumprida.

38
«E com seus filhos e mulher se parte
A alevantar co eles a fiança,
Descalços e despidos, de tal arte
Que mais move a piedade que a vingança.
– «Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
De minha temerária confiança
(Dizia) eis aqui venho oferecido
A te pagar co a vida o prometido.

39
«Vês aqui trago as vidas inocentes
Dos filhos sem pecado e da consorte;
Se a peitos generosos e excelentes
Dos fracos satisfaz a fera morte,
Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
Nelas sós exprimenta toda sorte
De tormentos, de mortes, pelo estilo
De Sínis e do touro de Perilo.»

40
«Qual diante do algoz o condenado,
Que já na vida a morte tem bebido,
Põe no cepo a garganta e já entregado
Espera pelo golpe tão temido:
Tal diante do Príncipe indinado
Egas estava, a tudo oferecido.
Mas o Rei vendo a estranha lealdade,
Mais pôde, enfim, que a ira, a piedade.

41
«Ó grão fidelidade Portuguesa
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que mil vezes dizendo suspirava
Que mais o seu Zopiro são prezara
Que vinte Babilónias que tomara.

42
«Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno,

43
«Em nenhũa outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo bautizado,
Que, pera um só, cem Mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que pera um cavaleiro houvesse cento.

44
«Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a fermosa e forte Dama
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte já gostaram.

45
«A matutina luz, serena e fria,
As Estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado assi gritava:
– «Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
E não a mi, que creio o que podeis!»

46
«Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando, o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: – «Real, real,
Por Afonso, alto Rei de Portugal!»

47
«Qual cos gritos e vozes incitado,
Pela montanha, o rábido moloso
Contra o touro remete, que fiado
Na força está do corno temeroso;
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que forçoso,
Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
Do bravo a força horrenda se quebranta:

48
«Tal do Rei novo o estâmago acendido
Por Deus e polo povo juntamente,
O Bárbaro comete, apercebido
Co animoso exército rompente.
Levantam nisto os Perros o alarido
Dos gritos; tocam a arma, ferve a gente,
As lanças e arcos tomam, tubas soam,
Instrumentos de guerra tudo atroam!

49
«Bem como quando a flama, que ateada
Foi nos áridos campos (assoprando
O sibilante Bóreas), animada
Co vento, o seco mato vai queimando;
A pastoral companha, que deitada
Co doce sono estava, despertando
Ao estridor do fogo que se ateia,
Recolhe o fato e foge pera a aldeia:

50
«Destarte o Mouro, atónito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
Não foge, mas espera confiado,
E o ginete belígero arremessa.
O Português o encontra denodado,
Pelos peitos as lanças lhe atravessa;
Uns caem meios mortos e outros vão
A ajuda convocando do Alcorão.

51
«Ali se vêm encontros temerosos,
Pera se desfazer ũa alta serra,
E os animais correndo furiosos
Que Neptuno amostrou, ferindo a terra;
Golpes se dão medonhos e forçosos;
Por toda a parte andava acesa a guerra;
Mas o de Luso arnês, couraça e malha,
Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

52
«Cabeças pelo campo vão saltando,
Braços, pernas, sem dono e sem sentido,
E doutros as entranhas palpitando,
Pálida a cor, o cesto amortecido.
Já perde o campo o exército nefando;
Correm rios do sangue desparzido,
Com que também do campo a cor se perde,
Tornado carmesi, de branco e verde.

53
«Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos.

54
«E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memória, em vária tinta,
Daquele de Quem foi favorecido.
Em cada um dos cinco, cinco pinta,
Porque assi fica o número cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis que em cruz pintando veio.

55
«Passado já algum tempo que passada
Era esta grão vitória, o Rei subido
A tomar vai Leiria, que tomada
Fora, mui pouco havia, do vencido.
Com esta a forte Arronches sojugada
Foi juntamente; e o sempre ennobrecido
Scabelicastro, cujo campo ameno
Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

56
«A estas nobres vilas sometidas
Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
E, nas serras da Lũa conhecidas,
Sojuga a fria Sintra o duro braço;
Sintra, onde as Naiades, escondidas
Nas fontes, vão fugindo ao doce laço
Onde Amor as enreda brandamente,
Nas águas acendendo fogo ardente.

57
«E tu, nobre Lisboa, que no mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo
Por cujo engano foi Dardânia acesa;
Tu, a quem obedece o Mar profundo,
Obedeceste à força Portuguesa,
Ajudada também da forte armada
Que das Boreais partes foi mandada.

58
«Lá do Germânico Álbis e do Reno
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o povo Sarraceno
Muitos com tenção santa eram partidos.
Entrando a boca já do Tejo ameno,
Co arraial do grande Afonso unidos,
Cuja alta fama antão subia aos céus,
Foi posto cerco aos muros Ulisseus.

59
«Cinco vezes a Lũa se escondera
E outras tantas mostrara cheio o rosto,
Quando a cidade, entrada, se rendera
Ao duro cerco que lhe estava posto.
Foi a batalha tão sanguina e fera
Quanto obrigava o firme pros[s]uposto
De vencedores ásperos e ousados,
E de vencidos já desesperados.

60
«Destarte, enfim, tomada se rendeu
Aquela que, nos tempos já passados,
À grande força nunca obedeceu
Dos frios povos Cíticos ousados,
Cujo poder a tanto se estendeu
Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
E, enfim, co Bétis tanto alguns puderam
Que à terra, de Vandália nome deram.

61
«Que cidade tão forte porventura
Haverá que resista, se Lisboa
Não pôde resistir à força dura
Da gente cuja fama tanto voa?
Já lhe obedece toda a Estremadura,
Óbidos, Alanquer, por onde soa
O tom das frescas águas entre as pedras,
Que murmurando lava, e Torres Vedras.

62
«E vós também, ó terras Transtaganas,
Afamadas co dom da flava Ceres,
Obedeceis às forças mais que humanas,
Entregando-lhe os muros e os poderes;
E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
Se sustentar a fértil terra queres:
Que Elvas e Moura e Serpa, conhecidas,
E Alcáçare do Sal estão rendidas.

63
«Eis a nobre cidade, certo assento
Do rebelde Sertório antigamente,
Onde ora as águas nítidas de argento
Vêm sustentar de longo a terra e a gente
Pelos arcos reais, que, cento e cento,
Nos ares se alevantam nobremente,
Obedeceu por meio e ousadia
De Giraldo, que medos não temia.

64
«Já na cidade Beja vai tomar
Vingança de Trancoso destruída
Afonso, que não sabe sossegar,
Por estender co a fama a curta vida.
Não se lhe pode muito sustentar
A cidade; mas, sendo já rendida,
Em toda a cousa viva a gente irada
Provando os fios vai da dura espada.

65
«Com estas sojugada foi Palmela
E a piscosa Sesimbra e, juntamente,
Sendo ajudado mais de sua estrela,
Desbarata um exército potente
(Sentiu-o a vila e viu-o a serra dela),
Que a socorrê-la vinha diligente
Pela fralda da serra, descuidado
Do temeroso encontro inopinado.

66
«O Rei de Badajoz era, alto Mouro,
Com quatro mil cavalos furiosos,
Inúmeros peões, de armas e de ouro
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos;
Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
Cos ciúmes da vaca, arreceosos,
Sentindo gente, o bruto e cego amante,
Salteia o descuidado caminhante:

67
«Destarte Afonso, súbito mostrado,
Na gente dá, que passa bem segura;
Fere, mata, derriba, denodado;
Foge o Rei Mouro e só da vida cura;
Dum pânico terror todo assombrado,
Só de segui-lo o exército procura;
Sendo estes que fizeram tanto abalo
Nô mais que só sessenta de cavalo.

68
«Logo segue a vitória, sem tardança,
O grão Rei incansábil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja usança
Era andar sempre terras conquistando.
Cercar vai Badajoz e logo alcança
O fim de seu desejo, pelejando
Com tanto esforço e arte e valentia,
Que a fez fazer às outras companhia.

69
«Mas o alto Deus, que pera longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou pera que se emende, às vezes tarda,
Ou por segredos que homem não conhece,
Se até qui sempre o forte Rei resguarda
Dos perigos a que ele se oferece,
Agora lhe não deixa ter defesa
Da maldição da mãe que estava presa:

70
«Que, estando na cidade que cercara,
Cercado nela foi dos Lioneses,
Porque a conquista dela lhe tomara,
De Lião sendo, e não dos Portugueses.
A pertinácia aqui lhe custa cara,
Assi como acontece muitas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
À batalha, onde foi vencido e preso.

71
«Ó famoso Pompeio, não te pene
De teus feitos ilustres a ruína,
Nem ver que a justa Némesis ordene
Ter teu sogro de ti vitória dina,
Posto que o frio Fásis ou Siene,
Que pera nenhum cabo a sombra inclina,
O Bootes gelado e a linha ardente
Temessem o teu nome geralmente.

72
«Posto que a rica Arábia e que os feroces
Heníocos e Colcos, cuja fama
O Véu dourado estende, e os Capadoces
E Judeia, que um Deus adora e ama,
E que os moles Sofenos e os atroces
Cilícios, com a Arménia, que derrama
As águas dos dous rios cuja fonte
Está noutro mais alto e santo monte,

73
«E posto, enfim, que desd' o mar de Atlante
Até o Cítico Tauro, monte erguido,
Já vencedor te vissem, não te espante
Se o campo Emátio só te viu vencido;
Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
Tudo render e ser despois rendido.
Assi o quis o Conselho alto, celeste,
Que vença o sogro a ti e o genro a este!

74
«Tornado o Rei sublime, finalmente,
Do divino Juízo castigado,
Despois que em Santarém soberbamente,
Em vão, dos Sarracenos foi cercado,
E despois que do mártire Vicente
O santíssimo corpo venerado
Do Sacro Promontório conhecido
À cidade Ulisseia foi trazido;

75
«Por que levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda o lasso velho
Que às terras se passasse d' Alentejo,
Com gente e co belígero aparelho.
Sancho, d' esforço e d' ânimo sobejo,
Avante passa e faz correr vermelho
O rio que Sevilha vai regando,
Co sangue Mauro, bárbaro e nefando.

76
«E, com esta vitória cobiçoso,
Já não descansa o moço, até que veja
Outro estrago como este, temeroso,
No Bárbaro que tem cercado Beja.
Não tarda muito o Príncipe ditoso
Sem ver o fim daquilo que deseja.
Assi estragado, o Mouro na vingança
De tantas perdas põe sua esperança.

77
«Já se ajuntam do monte a quem Medusa
O corpo fez perder que teve o Céu;
Já vêm do promontório de Ampelusa
E do Tinge, que assento foi de Anteu.
O morador de Abila não se escusa,
Que também com suas armas se moveu,
Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Todo o Reino que foi do nobre Juba.

78
«Entrava, com toda esta companhia,
O Miralmomini em Portugal;
Treze Reis mouros leva de valia,
Entre os quais tem o ceptro Imperial.
E assi, fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal,
Dom Sancho vai cercar em Santarém;
Porém não lhe sucede muito bem.

79
«Dá-lhe combates ásperos, fazendo
Ardis de guerra mil, o Mouro iroso;
Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
Mina secreta, aríete forçoso;
Porque o filho de Afonso, não perdendo
Nada do esforço e acordo generoso,
Tudo provê com ânimo e prudência,
Que em toda a parte há esforço e resistência.

80
«Mas o velho, a quem tinham já obrigado
Os trabalhosos anos ao sossego,
Estando na cidade cujo prado
Enverdecem as águas do Mondego,
Sabendo como o filho está cercado,
Em Santarém, do Mauro povo cego,
Se parte diligente da cidade;
Que não perde a presteza co a idade.

81
«E co a famosa gente, à guerra usada,
Vai socorrer o filho; e assi ajuntados,
A Portuguesa fúria costumada
Em breve os Mouros tem desbaratados.
A campina, que toda está coalhada
De marlotas, capuzes variados,
De cavalos, jaezes, presa rica,
De seus senhores mortos cheia fica.

82
«Logo todo o restante se partiu
De Lusitânia, postos em fugida;
O Miralmomini só não fugiu,
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
A Quem lhe esta vitória permitiu
Dão louvores e graças sem medida;
Que, em casos tão estranhos, claramente
Mais peleja o favor de Deus que a gente.

83
«De tamanhas vitórias triunfava
O velho Afonso, Príncipe subido,
Quando quem tudo enfim vencendo andava,
Da larga e muita idade foi vencido.
A pálida doença lhe tocava,
Com fria mão, o corpo enfraquecido;
E pagaram seus anos, deste jeito,
À triste Libitina seu direito.

84
«Os altos promontórios o choraram,
E dos rios as águas saüdosas
Os semeados campos alagaram,
Com lágrimas correndo piadosas;
Mas tanto pelo mundo se alargaram,
Com fama suas obras valerosas,
Que sempre no seu reino chamarão
«Afonso! Afonso!» os ecos; mas em vão.

85
«Sancho, forte mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida já se exprimentara
Quando o Bétis de sangue se tingia
E o bárbaro poder desbaratara
Do Ismaelita Rei de Andaluzia,
E mais quando os que Beja em vão cercaram
Os golpes de seu braço em si provaram;

86
«Despois que foi por Rei alevantado,
Havendo poucos anos que reinava,
A cidade de Silves tem cercado,
Cujos campos o Bárbaro lavrava.
Foi das valentes gentes ajudado
Da Germânica armada que passava,
De armas fortes e gente apercebida,
A recobrar Judeia já perdida.

87
«Passavam a ajudar na santa empresa
O roxo Federico, que moveu
O poderoso exército, em defesa
Da cidade onde Cristo padeceu,
Quando Guido, co a gente em sede acesa,
Ao grande Saladino se rendeu,
No lugar onde aos Mouros sobejavam
As águas que os de Guido desejavam.

88
«Mas a fermosa armada, que viera
Por contraste de vento àquela parte,
Sancho quis ajudar na guerra fera,
Já que em serviço vai do santo Marte.
Assi como a seu pai acontecera
Quando tomou Lisboa, da mesma arte
Do Germano ajudado, Silves toma
E o bravo morador destrui e doma.

89
«E se tantos troféus do Mahometa
Alevantando vai, também do forte
Lionês não consente estar quieta
A terra, usada aos casos de Mavorte,
Até que na cerviz seu jugo meta
Da soberba Tuí, que a mesma sorte
Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
Que por armas tu, Sancho, humildes tinhas.

90
«Mas, entre tantas palmas salteado
Da temerosa morte, fica herdeiro
Um filho seu, de todos estimado,
Que foi segundo Afonso e Rei terceiro.
No tempo deste, aos Mauros foi tomado
Alcáçare do Sal, por derradeiro;
Porque dantes os Mouros o tomaram,
Mas agora estruídos o pagaram.

91
«Morto despois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado;
Que tanto em seus descuidos se desmede
Que de outrem quem mandava era mandado.
De governar o Reino, que outro pede,
Por causa dos privados foi privado,
Porque, como por eles se regia,
Em todos os seus vícios consentia.

92
«Não era Sancho, não, tão desonesto
Como Nero, que um moço recebia
Por mulher e, despois, horrendo incesto
Com a mãe Agripina cometia;
Nem tão cruel às gentes e molesto
Que a cidade queimasse onde vivia;
Nem tão mau como foi Heliogabalo,
Nem como o mole Rei Sardanapalo.

93
«Nem era o povo seu tiranizado,
Como Sicília foi de seus tiranos;
Nem tinha, como Fálaris, achado
Género de tormentos inumanos;
Mas o Reino, de altivo e costumado
A senhores em tudo soberanos,
A Rei não obedece nem consente
Que não for mais que todos excelente.

94
«Por esta causa, o Reino governou
O Conde Bolonhês, despois alçado
Por Rei, quando da vida se apartou
Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
Este, que Afonso o Bravo se chamou,
Despois de ter o Reino segurado,
Em dilatá-lo cuida, que em terreno
Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

95
«Da terra dos Algarves, que lhe fora
Em casamento dada, grande parte
Recupera co braço, e deita fora
O Mouro, mal querido já de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitânia, com força e bélica arte,
E acabou de oprimir a nação forte,
Na terra que aos de Luso coube em sorte.

96
«Eis despois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Co este o Reino próspero florece
(Alcançada já a paz áurea divina)
Em constituições, leis e costumes,
Na terra já tranquila claros lumes.

97
«Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.

98
«Nobres vilas de novo edificou,
Fortalezas, castelos mui seguros,
E quási o Reino todo reformou
Com edifícios grandes e altos muros;
Mas despois que a dura Átropos cortou
O fio de seus dias já maduros,
Ficou-lhe o filho pouco obediente,
Quarto Afonso, mas forte e excelente.

99
«Este sempre as soberbas Castelhanas
Co peito desprezou firme e sereno,
Porque não é das forças Lusitanas
Temer poder maior, por mais pequeno;
Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
A possuir o Hespérico terreno,
Entraram pelas terras de Castela,
Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

100
«Nunca com Semirâmis gente tanta
Veio os campos Idáspicos enchendo,
Nem Átila, que Itália toda espanta,
Chamando-se de Deus açoute horrendo,
Gótica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno bárbaro, estupendo,
Co poder excessivo de Granada,
Foi nos campos Tartés[s]ios ajuntada.

101
«E, vendo o Rei sublime Castelhano
A força inexpugnábil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo Hispano,
Já perdido ũa vez, que a própria morte,
Pedindo ajuda ao forte Lusitano
Lhe mandava a caríssima consorte,
Mulher de quem a manda e filha amada
Daquele a cujo Reino foi mandada.

102
«Entrava a fermosíssima Maria
Polos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados;
Os cabelos angélicos trazia
Pelos ebúrneos ombros espalhados.
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:

103
– «Quantos povos a terra produziu
De África toda, gente fera e estranha,
O grão Rei de Marrocos conduziu
Pera vir possuir a nobre Espanha:
Poder tamanho junto não se viu
Despois que o salso mar a terra banha;
Trazem ferocidade e furor tanto
Que a vivos medo e a mortos faz espanto!

104
«Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe está da Maura espada;
E, se não for contigo socorrido,
Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;
Viúva e triste e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino e sem ventura.

105
«Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardança, acude cedo
À miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que, se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres.»

106
«Não de outra sorte a tímida Maria
Falando está que a triste Vénus, quando
A Júpiter, seu pai, favor pedia
Pera Eneias, seu filho, navegando;
Que a tanta piedade o comovia
Que, caído das mãos o raio infando,
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

107
«Mas já cos esquadrões da gente armada
Os Eborenses campos vão coalhados;
Lustra co Sol o arnês, a lança, a espada;
Vão rinchando os cavalos jaezados;
A canora trombeta embandeirada
Os corações, à paz acostumados,
Vai às fulgentes armas incitando,
Polas concavidades retumbando.

108
«Entre todos no meio se sublima,
Das insígnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado,
E somente co gesto esforça e anima
A qualquer coração amedrontado.
Assi entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.

109
«Juntos os dous Afonsos, finalmente
Nos campos de Tarifa estão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Pera quem são pequenos campo e monte.
Não há peito tão alto e tão potente
Que de desconfiança não se afronte,
Enquanto não conheça e claro veja
Que co braço dos seus Cristo peleja.

110
«Estão de Agar os netos quási rindo
Do poder dos Cristãos, fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo,
Antemão, entre o exército Agareno,
Que, com título falso, possuindo
Está o famoso nome Sarraceno.
Assi também, com falsa conta e nua,
À nobre terra alheia chamam sua.

111
«Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
Do Rei Saul, com causa tão temido,
Vendo o Pastor inerme estar diante,
Só de pedras e esforço apercebido,
Com palavras soberbas, o arrogante,
Despreza o fraco moço mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
(Quanto mais pode a Fé que a força humana!)

112
«Destarte o Mouro pérfido despreza
O poder dos Cristãos, e não entende
Que está ajudado da alta Fortaleza
A quem o Inferno horrífico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza,
De Marrocos o Rei comete e ofende;
O Português, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.

113
«Eis as lanças e espadas retiniam
Por cima dos arneses – bravo estrago! –;
Chamam (segundo as Leis que ali seguiam),
Uns Mafamede e os outros Santiago.
Os feridos com grita o céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros, meios mortos, se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.

114
«Com esforço tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que em pouco espaço
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
De alcançar tal vitória tão barata
Inda não bem contente o forte braço,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando está co Mauritano.

115
«Já se ia o Sol ardente recolhendo
Pera a casa de Tétis, e inclinado
Pera, o Ponente, o véspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro, grande e horrendo,
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortindade que a memória
Nunca no mundo viu tão grão vitória.

116
«Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperíssimo contrário
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

117
«E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste,
E não força de braço, ó nobre Tito;
Que assi dos Vates foi profetizado,
E despois por JESU certificado.

118
«Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

119
«Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
«Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

122
«De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

123
«Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra ũa fraca dama delicada?

124
«Traziam-a os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saüdade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

125
«Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

126
– «Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piadoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:

127
«Ó  tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar ũa donzela,
Fraca e sem força, só por ter subjeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

128
«E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida com clemência
A quem pera perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

129
«Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre liões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas, que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.»

130
«Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra ũa dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais – e cavaleiros?

131
«Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

132
«Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

133
«Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes!

134
«Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

135
«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!

136
«Não correu muito tempo que a vingança
Não visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas;
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.

137
«Este, castigador foi rigoroso
De latrocínios, mortes e adultérios;
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigérios.
As cidades guardando, justiçoso,
De todos os soberbos vitupérios,
Mais ladrões, castigando, à morte deu,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

138
«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!),
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino pôs em muito aperto;
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente;
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

139
«Ou foi castigo claro do pecado
De tirar Lianor a seu marido
E casar-se com ela, de enlevado
Num falso parecer mal entendido,
Ou foi que o coração, sujeito e dado
Ao vício vil, de quem se viu rendido,
Mole se fez e fraco; e bem parece
Que um baxo amor os fortes enfraquece.

140
«Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos, que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Ápio também Tarquino o viu.
Pois por quem David Santo se condena?
Ou quem o Tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

141
«E pois, se os peitos fortes enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece
Quando em Ônfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu também, Peno próspero, o sentiste
Despois que ũa moça vil na Apúlia viste.

142
«Mas quem pode livrar-se, porventura,
Dos laços que Amor arma brandamente
Entre as rosas e a neve humana pura,
O ouro e o alabastro transparente?
Quem, de ũa peregrina formosura,
De um vulto de Medusa propriamente,
Que o coração converte, que tem preso,
Em pedra, não, mas em desejo aceso?

143
«Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
Ũa suave e angélica excelência,
Que em si está sempre as almas transformando,
Que tivesse contra ela resistência?
Desculpado por certo está Fernando,
Pera quem tem de amor experiência;
Mas antes, tendo livre a fantasia,
Por muito mais culpado o julgaria.

 

 


NOTAS

1.1-6
Agora tu, Calíope, me ensina": Calíope, uma das Nove Musas, a da eloquência e da poesia heróica, a primeira de todas em dignidade; "Assi o claro inventor da Medicina": Apolo ("Inventum medicina meum est", Ov., M, I.521); "De quem Orfeu pariste ...": Orfeu passa por filho de Calíope e o Poeta aceita a versão que o faz filho de Apolo. Na Bucólica IV, Virgílio também segue esta versão (IV.56-57). Orfeu é o cantor por excelência, o músico e o poeta.

1.7
Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe": Dafne signfica "loureiro" em grego. Foi amada de Apolo. Perseguida por este, acabou por pedir a seu pai, o rio Peneu, que a metamorfoseasse em loureiro (v. Ov., M, 1.452-565); Clície, oceânide amada de Apolo, metamorfoseada em heliotrópio; Leucotoe, que nasceu no país "de onde nos vêm os perfumes", filha de Órcamo, que "rexit Achaemenias urbes", amada de Apolo, transformada na árvore do incenso. A história de Leucotoe e Clície vem em Ov., M, IV.190-271. Apolo aqui é identificado ao Sol.
Soer, verbo arcaico que significa costumar.

2.3-5
"... que do Tejo / O licor de Aganipe corre e mana": licor aqui é a água da fonte. Sobre Aganipe, v. nosso comentário a I.4.8; "Deixa as flores de Pindo ...": sobre o Pindo, v. nosso comentário a I.4.8.

3.5
Ort.: escuitar (por escutar). Camões escreveu geanalosia (por genealogia).

6.1-8
"Entre a Zona que o Cancro senhoria /... / E aquela que por fria se arreceia": o trópico de Câncer e o círculo polar Árctico; "pela parte do Arcturo e do Ocidente": Arcturo está aqui pelo Norte. Sobre o Arcturo, v. nosso comentário a I.21.1-8.
Ort.: Mediterrano (por Mediterrâneo)

7.2-4
"... mas o rio / Que dos Montes Rifeios vai correndo / Na alagoa Meótis ...": Montes Rifeios são montes fabulosos da região hiperbórea. Já assim os considerava Estrabão (Geografia, 7.3.1 e 7.3.6). Aplica-se vagamente a todas as cordilheiras do Norte da Europa e da Ásia. É interessante a opinião de Gaspar Barreiros, na sua Chorograpbia (M.D.LXI), fls. 17 v.º e 18: "& como outros cuidaram que o Caspio era navegável com o Oceano Septentrional, com as fabulas dos montes Ripheos & Hiperboreos & nacimento do Tanais, & de outras muitas cousas em que o mundo esteve enganado por spaço de muitos annos ..." Diz Plínio, IV.XII.78: "Lacus ipse Maeotis Tanain amnem ex Ripaeis montibus defluentem accipiens, novissimum inter Europam Asiamque finem." A alagoa Meótis é o mar de Azove; o Tánais é o Dom.

7.5-6
"... e o mar que ... / Viu dos Gregos o irado senhorio": é o mar Egeu.

8.2-4
"Os Montes Hiperbóreos aparecem": os Montes Hiperbóreos têm uma localização tão indefinida como os montes Rifeus (v. Estrabão, G, 7.3.1); "E aqueles onde sempre sopra Eolo / E co nome dos sopros se ennobrecem": Êolo, o rei dos ventos; o nome de Rifeus ou Ripeus pode traduzir-se por impulso, jacto ou sopro. São os montes Rifeus. Na edição princeps, «do sopros» está por «dos sopros», que para JMR seria um dos muitos casos de fonética sintáctica.
Ort.: contino (por contínuo).

9.1-2
"Aqui dos Citas grande quantidade / Vivem ...": vasto país ao norte do mundo conhecido dos Antigos. Referindo-se às populações ao norte do Danúbio, diz Plínio: "Ab eo in plenum quidem omnes Scytharum sunt gentes" (IV.XII.80). O verbo do plural concorda com sujeito colectivo.

9.8
"Ao campo Damasceno o perguntara": "Muyto mais verdadeiramente parece q [falta o ~ no q]se pode afirmar que a terra que primeiro se povoou estaa entre estas ambas: a qual he ho campo Damasceno & os lugares circũjeitos [falta o ~ no u de circujeitos] a elle. Esta foy a primeira terra que foy povoada: & assi o mostra a sagrada scriptura porque ho trato dessa terra ... he livre dos dãnos que tẽ – a do Egipto & a dos Scythas" (Sabélico, Enneades, pp. 13-15 do t. I da tradução empreendida por D. Leonor de Noronha, in JMR, FL, p. 258). O Poeta aceitava, pois, a tradição de que a criação do primeiro homem fora em Damasco.

10.1-4
"A Lápia fria ...": a Lapónia; "Escandinávia Ilha, que se arreia / Das vitórias que Itália não lhe nega": Sabélico diz o seguinte: "Fuit gens ipsa [trata-se dos Lombardos] ex Scandinavia oriunda. Est insula haec Germanici Oceani ... Multae in eo insulae; Scandinavis omnium maxima ..." (V. in JMR, FL, p. 259.) O comentador J. D. M. Ford diz, em nota a estes versos, o seguinte: "O historiador Jordanes (século VI a. C.), no seu livro De rebus Geticis, declara que os Godos vieram originariamente de Scanzia ou Suécia, e o nosso Poeta pode ter querido aqui falar das conquistas góticas em Itália." Veja, no entanto, este comentário de Gaspar Barreiros: "Pella qual desposiçam da terra fezeram sempre nella seu assento os reis godos, & despois d' elles os Langobardos, todo tempo que possuiram a Gallia Cisalpina chamada d' elles Lõbardia. Cousa muito digna de notar, ver hũa gente nacida & criada dentro no pego do Oceano Germanico, em hũa ilha per nome Scãdinavia, nam somente barbara, mas fera sem nenhũa cultura de costumes políticos, obscura & pouco conhecida do mundo ...q[~] tevesse tanto poder & fortuna q[~] viesse regnar. cc. & XXX annos, na mais illustre & delectosa província do mũdo..." (Chorographia, fl. 228.)

10.5-8
"... se navega / Um braço do Sarmático Oceano": se navega é navegado; o Sarmático Mar ou Sarmático Oceano é o mar Báltico; "Pelo Brús[s]sio, Suécio e frio Dano": O Brúsio, os Prussianos; o Suécio, os Suecos; o frio Dano, os Dinamarqueses.

11.1-4
"Entre este Mar e o Tánais ...": este Mar, o mar Báltico; o Tánais, o Dom; "... Rutenos, Moscos e Livónios, / Sármatas outro tempo; ...": região que ocupava toda a área da actual Rússia meridional, entrando a noroeste pela Polónia e a sueste até quase ao mar Cáspio. O seu centro é fixado ao norte do Cáucaso. Seu limite ao norte do Ponto Euxino; «... e na montanha / Hircínia os Marcomanos são Polónios": a Floresta Hircínia identifica-se hoje com a Floresta Negra, ainda que o antigo termo, segundo Elton, abranja também as florestas do Hartz e os bosques da Vestefália e de Nassau. Strabo, traduzido por H. L. Jones, vol. III, p. 154, nota 5; "os Marcomanos são Polónios": os Marcomanos são de origem germânica, e não polaca. JMR crê que, de harmonia com a sua fonte, Sabélico, Camões teria escrito "os Massovitas são Polónios".

11.6-8
"... Panónios": "Quae pars ad mare Hadriaticum spectat appellatur Delmatia et Illyricum supra dictum; ad septentriones Pannonia vergit: finitur inde Danuvio", Plínio, III.XXV.147; "... Amásis e Álbis rio": Amásis, o Ems; Álbis, o Elba.

12.1-4
"Entre o remoto Istro e o claro estreito / Aonde Hele deixou, co nome, a vida": Istro era o nome do Danúbio inferior. Hele, irmã de Frixo, fugiu com este num carneiro voador que deveria salvá-los da morte e do ódio da sua madrasta, Ino. Enquanto Frixo chegava à Cólquida, Hele caía no mar que veio a receber o seu nome: Helesponto, ou mar de Hele; "Estão os Traces de robusto peito, / Do fero Marte pátria tão querida": Ares (ou Marte) passa por ter vivido na Trácia, num país semi-selvagem, de clima rude, rico em cavalos e percorrido por populações guerreiras. "Ita [a Trácia] finit Hister [Danúbio] a septentrione, ab ortu Pontus [mar Negro] ac Propontis [mar da Mármara], a meridie Aegaeum mare [mar Egeu] ..." (Plínio, IV.XI.42).

12.5-8
"Onde, co Hemo, o Ródope sujeito": Hemo e Ródope, montanhas da Trácia; "Bizâncio tem a seu serviço indino": Bizâncio é Constantinopla (cidade de Constantino); " – Boa injúria do grande Costantino!": boa injúria sofrida pelo grande Constantino.
Ort.: indino (por indigno); Costantino (por Constantino), sendo o mesmo em I.60.8.

13.1-2
"Logo de Macedónia estão as gentes": Macedónia, região no Norte da Grécia, pátria de Filipe (ou Filipo, como diz o Poeta) e de Alexandre (ou Alexandro) Magno; "A quem lava do Áxio a água fria": o rio Áxio, da Macedónia.

14.1-5
"Logo os Dálmatas vivem; ...": hoje região da Jugoslávia, ao longo do Adriático; "... e no seio / Onde Antenor já muros levantou": v. nosso comentário a II.45.3, "Da terra um braço vem ao mar...": a Península Itálica.

15.1-5
"Em torno o cerca o Reino Neptunino, / Cos muros naturais por outra parte": a Itália é cercada por mar menos pelo norte, em que "os muros naturais" (os Alpes) a limitam; "Pelo meio o divide o Apenino / Que tão ilustre fez o pátrio Marte": certamente pela opinião pouco fundamentada de que os Poenos (Peninos) e Aníbal tinham passado por estas montanhas. Sobre este ponto v. Gaspar Barreiros, Chorographia, fls. 184 e segs.; "Mas, despois que o Porteiro tem divino": os sucessores de S. Pedro, os papas.
Potestade é latinismo.

16.1-8
"Gália ali se verá, que nomeada / Cos Cesáreos triunfos ...": certamente os triunfos de Júlio César (De bello Gallico); "Séquana", "Ródano", "Garuna" e "Reno": Sena, Ródano, Garona e Reno; "Logo os montes da Ninfa sepultada": Gaspar Barreiros, na sua Chorographia, fl. 141, fala nas duas lendas que o Poeta recolheu: a do grande fogo que fez descobrir muitas minas de prata e de outros metais (Diodoro Sículo, na sua Biblioteca Historica, 1.5) e a da morte de Pirene, filha de Hércules, de que fala Sílio Itálico na sua Púnica III. Não fala, porém, de rios de ouro.

17.4
"... a fatal roda": a roda do destino.
Ort.: noda (por nódoa).

18.1-4
"Com Tingitânia entesta ...": com a Mauritânia Tingitana (Marrocos); "... Mar Mediterrano": por mar Mediterrâneo; "Onde o sabido Estreito se ennobrece / Co extremo trabalho do Tebano": refere-se ao estreito de Gibraltar. No seu 10.º trabalho (para alguns o extremo trabalho do Tebano), Hércules conduziu os rebanhos de Gérion, monstro de três corpos que vivia na ilha Eritreia, situada nas brumas do Ocidente "para lá do imenso oceano". Hércules levou os bois e matou o cão e o boieiro. O próprio Gérion foi morto por Hércules. No regresso à Grécia, Hércules passa por várias aventuras, entre as quais a da abertura do estreito que separa a Líbia da Europa - as colunas de Hércules. Hércules nasceu, embora acidentalmente, em Tebas. Por isso lhe chamam o Tebano.

19.1-8
"Tem o Tarragonês ...": epíteto dado a Afonso V de Aragão, que se fez "claro", que se fez ilustre, conquistando Nápoles; "Sujeitando Parténope inquieta": Parténope foi o anterior nome de Nápoles. A sereia Parténope lançou-se ao mar com suas irmãs; as ondas atiraram o seu corpo para o litoral napolitano, onde lhe ergueram um monumento; inquieta, por pouco dócil ao domínio de Afonso V; "O Navarro, as Astúrias, que reparo / Já foram contra a gente Mahometa": a Navarra é ligada às Astúrias na sua defesa contra os Árabes. Os restos dos Godos, depois da derrota do exército de Rodrigo, refugiaram-se nas Astúrias e daí recomeçou a Reconquista; "Tem o Galego cauto e o grande e raro / Castelhano ...": cauto, precavido, desconfiado; grande e raro Castelhano: admirável, ilustre; "... a quem fez o seu Planeta / Restituidor de Espanha ...": a quem o seu destino fez restaurador de Espanha. Restituidor é latinismo. "Bétis, ...": Bétis, por Bética ou Andaluzia. Bétis é o Guadalquivir.

20.1-4
"Eis aqui, quási cume ...": como se fosse cume; "Onde a terra se acaba e o mar começa / E onde Febo repousa no Oceano": sobre Febo, v. nosso comentário em I.4.5-7; repousa no Oceano: é sobre o Oceano que os raios solares brilham, entrando Portugal na sombra e, com ele, a Europa inteira (v. VII.60.2-3).

21.5-8
"Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso ou Lisa ...": "Igitur tam a Luso, quam a Lysia, regio nomen adcepit. Et a Luso quidem, Lusitania dicta est. A Lysia vero Lysitania. Utroque enim modo adpellatur, teste Stephano." (in Vincent., "Adnotationes", II.24.)

22.1-6
"Desta o pastor nasceu que no seu nome / Se vê que de homem forte os feitos teve": Desta (Lusitânia) nasceu Viriato, que o Poeta deriva de vir; "Pois a grande de Roma ...": a grande (fama); "Esta, o velho que os filhos próprios come / Veio a fazer no mundo tanta parte": o velho (Cronos, o Tempo, identificado com Saturno) veio a fazer que esta (Lusitânia) fosse no mundo tanta parte (tão grande parte); "Por decreto do Céu, ligeiro e leve": é o primeiro móbil, definido como em X.85.7 - "ligeiro e leve".

23.1
"Um Rei, por nome Afonso ...": Afonso VI de Leão e I de Castela (1065-1109).
Ort.: sanguinas (por sanguíneas).

23.6
"Do Herculano Calpe à Cáspia Serra": Calpe (Gibraltar), uma das colunas de Hércules; Cáspia Serra, montes vizinhos do mar Cáspio.

24.1
"E com um amor intrínseco ...": com um amor profundo.
Ort.: dino (por digno); dões (por dons).

25.1-2
"Destes Anrique (dizem que segundo / Filho de um Rei de Hungria exprimentado)": "E com o conde Dom reimõ de Tolosa veio a casa delrej D. aº hũ seu sobrinho fº de hũa sua irmam que era casada com elrej de Ungria que avia nome Dom Henrique e era o segundo fº lidimo de elrej de Ungria e de sua irmam do Conde de Tolosa" (Crónica de Cinco Reis, p. 43); "Entre os quaes vieram tres mui principaes senhores, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França e o conde D. Reymão de S. Gil de Proença; e D. Hanrique, sobrinho deste conde de Tolosa, filho segundo génito da uma sua irmã, e del Rei d' Hungria, com que era casada ..." (Duarte Galvão, Crónica de D. Afonso Henriques, p. 12.) "Nostri historici Pannoniae regis filium fuisse dicunt, Hispani Lotharingum faciunt" (L. Andr. Resend., in Vincent., "Adnotationes", II.24). As histórias modernas fazem Henrique, primo de Raimundo, quarto filho de Henrique, neto de Roberto, duque de Borgonha, e bisneto de Roberto II, rei de França.

26.1
"Este, despois que contra os descendentes / Da escrava Agar ...": os Ismaelitas. "Este ... deu-lhe" (v. 6): anacoluto.

27.1-5
"Já tinha vindo Anrique da conquista / Da cidade Hierosólima sagrada": D. Henrique estava de volta de Jerusalém em 1105; "E do Jordão a areia tinha vista": rio da Palestina; tinha vista, concordância do particípio com o complemento directo – areia; "Que viu de Deus a carne em si lavada": Jesus Cristo foi baptizado nas águas do Jordão por S. João Baptista; "Que, não tendo Gotfredo a quem resista": Godofredo de Bulhão (1061-1100), duque da Baixa Lorena, chefe da 1.ª Cruzada.
Ort.: sojugada (por subjugada).

28.5-6
"Ficava o filho em tenra mocidade": o conde D. Henrique, falecido em 1 de Maio de 1114, deixou o filho, D. Afonso Henriques, com 2 ou 3 anos de idade; "Em quem o pai deixava seu traslado": uma cópia das suas qualidades.

29.4
"Do segundo himeneu não se despreza": não é histórico o segundo matrimónio da mãe de D. Afonso Henriques com Fernando Pérez, conde de Trava e Trastâmara.

30.5
"Fervendo-lhe no peito o duro Marte": ardendo na ânsia de combater "a mãe e o marido".

31.1
"De Guimarães o campo se tingia": as hostes de D. Teresa e de D. Afonso Henriques encontraram-se no campo de S. Mamede, junto de Guimarães, em 1128.

32.1
" Ó Progne crua, ó mágica Medeia!": Progne, para se vingar de seu marido, Tereu, que atentou contra a virgindade de sua irmã, Filomela, matou o filho daquele, Ítis, e deu-o a comer ao próprio pai. Perseguidas por Tereu, conseguiram, mercê dos deuses, transformar-se Progne em andorinha e Filomela em rouxinol. (Ov., M, VI.440-673). Dos vários crimes cometidos por Medeia, mulher de Jasão, chefe dos Argonautas, conta-se o de, para se vingar de seu marido, infiel, ter degolado em Corinto os filhos que teve dele (v. Ov., M, VII.350-403).

32.7
"Cila, por ũa, mata o velho pai": Cila, filha do rei de Mégara, Nisos, apaixonou-se por Minos, quando este veio cercar a sua pátria para punir o assassínio de Andrógeo. A filha de Nisos, traindo a sua pátria, dispôs-se a cortar um cabelo fatal de seu pai, um cabelo com o brilho da púrpura, garantia da sua autoridade suprema e que o tornava invencível, com a promessa de casar com Minos. Mégara foi com efeito tomada, mas, horrorizado com o crime de Cila, Minos abandonou-a (v. Ov., M, VIII.8-152).

33-2-8
"... e da inica mãe . . .': inica, por ter lutado contra o filho por "incontinência má" e "cobiça feia" (32.5); "A mãe em ferros ásperos atava": "& o Principe Dom Afonsso henrriquez pos então sua madre em ferros ..." (Crónica de Cinco Reis, p. 55); "Tanta veneração aos pais se deve!": D. Galvão, cap. XLV: "Por onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais e mães, segundo por Deus lhes é estreitamente mandado ..."
Ort.: inica (por iníqua).

34.8
"Mas o inimigo aspérrimo afugenta": refere-se ao encontro na veiga de Valdevez (1128), em que D. Afonso VII de Leão e II de Castela, que acudiu por D. Teresa, teve de retirar-se para Toledo (D. Galvão, cap. VII). Aspérrimo é latinismo.

35-1-2
"Não passa muito tempo, quando o forte / Príncipe em Guimarães está cercado": por intermédio de Egas Moniz, aio de D. Afonso, conseguiu-se o descerco, mas D. Afonso não se dispôs a cumprir as promessas de seu aio (1129).
Ort.: imigo (por inimigo).

37.5
"Vendo Egas que ficava fementido": sobre este episódio, a que o Poeta consagra as est. 37-40, v. o cap. X da Crónica de Duarte Galvão (o episódio refere-se a 1129).

39.3-8
"Se a peitos generosos e excelentes": generosos, nobres; "... pelo estilo / De Sinis e do touro de Perilo": Sinis, um dos salteadores mortos por Teseu; dobrava pinheiros, entre os quais ligava um homem; depois libertava os pinheiros e o homem era esquartejado no ar (v. Apollodoro, Biblioteca, III, 16, e Plutarco, Teseu, VIII). Perilo, ateniense, inventou para Fálaris, tirano de Agrigento, um touro de bronze. Metendo um homem dentro do touro e acendendo um lume por baixo o homem mugiria como um touro. Fálaris começou por experimentar aquele novo meio de tortura no próprio Perilo (Textor, Officina, fl, CCLXXV, cita como fonte Ov., 1.2, De Ponto). Ov. não nomeia Perilo: saevior illo (Ov., Tristia, III.XI-39),

40.5
Ort.: indinado (por indignado).

41.7
"Que mais o seu Zopiro são prezara": Zópiro, sátrapa persa, levado pela sua dedicação a Dario I, cortou o nariz e as orelhas e introduziu-se em seguida em Babilónia, cercada pelo Grande Rei, para mostrar aos habitantes que Dario era o autor daquele cruel tratamento. Tendo conquistado a confiança dos Babilónios, Zópiro aproveitou-se dela para fazer entrar o exército de Dario na cidade (519 a. C.) (v. Justino, I, X, 15, cit. por ED).

42.5
"Já no campo de Ourique se assentava": v. Duarte Galvão, Cr. cit., caps. XIII a XVII.

43.3
Ort.: bautizado (por baptizado).

44.1-7
"Cinco Reis Mouros são os inimigos": v. Duarte Galvão, cap. XIII, p. 68; "Seguem guerreiras damas seus amigos": id., ibid.; "De quem tanto os Troianos se ajudaram": depois da morte de Heitor, Pentesileia tinha vindo em socorro de Príamo à frente de um contingente de Amazonas. Foi morta por Aquiles (Apollodoro, Epítome, V.1). A fonte da narrativa de Pentesileia é Pausânias.

44.8
"E as que o Termodontegostaram": as Amazonas, mulheres guerreiras que habitavam a região do Ponto. O Termodonte era o rio nas margens do qual elas viviam. Os Argonautas, na sua viagem, passaram perto delas. Já gostaram: já provaram.

45.3
"Quando na Cruz o Filho de Maria": v. Duarte Galvão, Crónica de D. Afonso Henriques, cap. XV, p. 79: "E o Príncipe saiu-se fora de sua tenda, e segundo ele mesmo disse e deu testemunho em sua história, viu nosso Senhor em Cruz na maneira que dissera o Ermitão. E adorou-o com lagrimas de grande prazer, confortado e animado com tal enlevamento e confirmação do Espirito Santo, que se afirma, tanto que viu Nosso Senhor, haver entre outras palavras falado algumas sobre coração e espírito humano, dizendo: – "Senhor! Aos hereges, aos hereges faz mester apareceres, que eu sem nenhuma dúvida creio e espero em ti firmemente!"

46.7-8
"Dizendo em alta voz: - "Real, real, / Por Afonso, alto Rei de Portugal": "o Príncipe, vendo-se tão aficado deles, disse que pois assim era, que fizessem o que lhes bem parecesse. E então todos o levantaram por Rei, bradando com grande prazer e alegria: – "Real, Real, por el-Rei D. Afonso Hanriques de Portugal!" (Duarte Galvão, cap. XVI, no fim.)

47.2
"... o rábido moloso": molosso, cão de caça, originário da Molóssia, parte do Epiro.

48.1-6
"Tal do Rei novo o estâmago acendido": estâmago, o ânimo; "Levantam nisto os Perros o alarido": os cães, injúria vulgar dirigida aos Muçulmanos; "... o alarido / Dos gritos; tocam a arma ...": apelidar arma! arma!, com que se dá rebate ao inimigo, e daí tocar a arma; "... ferve a gente": como em II.24.3-5.

49.8
"Recolhe o fato ...": aqui significa rebanho [da pastoral companha].

50.4
"... belígero ...": é latinismo.

51.3-4
"E os animais correndo furiosos / Que Neptuno amostrou, ferindo a terra": "E tu, Neptuno, cujo tridente temível fez saltar do seio da terra o corcel fremente" (Virgílio, G, I.12-14).

53.5
"Aqui pinta no branco escudo ufano": escudo das armas de Portugal.

54.1-8
"E nestes cinco escudos ...": Duarte Galvão, cap. XVIII: "Primeiramente, porque lhe nosso Senhor aparecera no Céu em Cruz, pôs, sobre o campo branco que dantes no Escudo trazia, por armas uma cruz toda azul, partida em cinco Escudos, pelos Cinco Reis que vencera; e meteu trinta dinheiros de prata em cada um dos Escudos, em renembrança damorte e paixão do nosso Senhor, vendido por trinta dinheiros. E os reis de Portugal, que depois vieram, vendo que não se podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos d' armas, poseram em cada um dos cinco Escudos, cinco dinheiros em aspa, e assim contando por si cada uma carreira da Cruz de longo e atravez, metendo sempre no conto, de ambas as vezes, o Escudo da metade, fazem trinta dinheiros, e desta maneira se trazem agora." (Duarte Galvão, Crónica de D. Afonso Henriques, cap. XVIII.)

55.1-7
Também o bom do Homero às vezes dormita:

Passado já algum tempo que passada
Era esta grão vitória, o Rei subido
A tomar vai Leiria, que tomada

55.4-7
"Fora, mui pouco havia, do vencido": o rei Ismar; "Scabelicastro ...": por Scalabicastro (Santarém).
Ort.: sojugada (por subjugada).

56.2-5
"... em pouco espaço": em pouco tempo, como em I.91.4-8; "E, nas serras da Lũa conhecidas": "Lunae mons est, is quem nostra aetas Sintriensem ab oppido adpellat, ad cuujus promontorii radices, in litore templum olim fuit Solis & Lunae, summa religione cultum. De quo in Antiquitatibus Lusitaniae aliquando, Deo favente, dicemus" (L. Andr. Resend., in Vincent., "Adnotationes", II.39); "Sintra, onde as Naiades, escondidas / Nas fontes ...": as Náiades são as ninfas dos rios e das fontes, como as Nereides são as ninfas do mar. Ov., M, I.1.691, chama a Siringe uma Náiade.
Ort.: Sometidas (por submetidas); sojuga (por subjuga).

57.3-8
"Que edificada foste do facundo": Ulisses; "Por cujo engano foi Dardânia acesa": por cujo estratagema (a invenção do cavalo de pau); Dardânia toma-se por Tróia, de Dárdano, filho de Zeus e de Electra, fundador da dinastia real de Tróia; "Ajudada também da forte armada": o exército cristão da Segunda Cruzada na Primavera de 1147 largava do porto inglês de Dartmouth para a Terra Santa. Compunha-se de alemães, flamengos, franceses e ingleses, que foram persuadidos no Porto, de acordo com D. Afonso Henriques, a prestar a sua colaboração à conquista de Lisboa, que estava ainda em poder dos infiéis. Entraram no Tejo a 28 de Junho e a cidade capitulou em 23 ou 24 de Outubro de 1147; "Que das Boreais partes foi mandada": de Inglaterra.

58.1-8
"Lá do Germânico Álbis ...":  Álbis, o Elba; "aos muros Ulisseus": a cidade fundada por Ulisses, Lisboa.

59.1-2
"Cinco vezes a Lũa se escondera / E outras tantas mostrara cheio o rosto": o Poeta exprime em lunações a duração do cerco de Lisboa: perto de cinco meses, como diz Duarte Galvão, Crónica de D. Afonso Henriques, cap. XXXIV.
Ort.: sanguina (por sanguínea).

60.3-8
"À grande força nunca obedeceu / Dos frios povos Cíticos ousados": os frios povos Cíticos são os Alanos, Vândalos e Suevos, que em 411 se distribuíram por diversas regiões da Península, ocupando os Alanos a Lusitânia e a Cartaginense, os Vândalos e Suevos a Galiza e a tribo vândala dos Silingos a Bética. Quer o Poeta que Lisboa nunca se tenha rendido a estes; "Que o Ibero o viu ...": o Ebro; "E, enfim, co Bétis tanto alguns puderam / Que à terra, de Vandália o nome deram": os vândalos da Galécia passaram para a Bética até 429. A região da Bética (Guadalquivir) por eles ocupada foi a Vandalicia (nos poetas Vandália), hoje Andaluzia.

61.6-8
"... por onde soa / O tom das frescas águas entre as pedras, / Que murmurando lava ...": há quem dê a lava o sujeito tom. A água não lava o tom, mas sim as pedras. O Poeta tinha no pensamento as frescas águas do pequeno rio chamado mesmo Alenquer, que vem do Montejunto e lava as pedras.

62.1-2
"E vós também, ó terras Transtaganas": "Tagus autem mediam secat Lusitaniam, Anas vero Lusitaniam a Baetica separat. Regio inter utrumque amnem, optima Lusitaniae pars, Allentagio vulgo dicitur. Nos Transtaganam fecimus, & populos Transtaganos ..." (L. Andr. Resend., in Vincent., "Adnotationes", II.25); "... flava Ceres": flava é dourada; Ceres, deusa da agricultura. O Poeta pensa nos trigais do Alentejo.

63.1-8
"Eis a nobre cidade, certo assento / Do rebelde Sertório ...": é Évora (1165); certo assento: assento certo, inegável, indiscutível. O Poeta segue a opinião de André Resende, que reforçou a prova com inscrições por ele mesmo forjadas; "Onde ora as águas nítidas de argento": o aqueduto chamado Água de Prata. Começaram os trabalhos de edificação do aqueduto sobre o antigo aqueduto, chamado de Sertório, depois de 1531, durando as obras sete anos; "Vêm sustentar de longo a terra e a gente": por alongado caminho; "Obedeceu ...": rendeu-se a Geraldo Sem-Pavor. Repare-se na construção: "Eis a nobre cidade ... Obedeceu"; "De Giraldo, que medos não temia": um antigo bandoleiro, que escolheu o Alentejo como valhacouto e que um dia resolveu fazer uma proeza que o reabilitasse. Em Setembro ou Outubro de 1165 tomou, ou melhor, assaltou Évora, feito de incrível audácia nas condições em que foi realizado; medos, perigos.

64.1-5
"Já na cidade Beja ...": Beja, aposto; "Não se lhe pode muito sustentar": a cidade de Beja, que foi definitivamente tomada em 30 de Novembro de 1162. "[D. Afonso] ... passou-se a Alentejo ... até chegar a Beja. A qual tendo cercada entrou gram poder de Mouros pela comarca da Beira a fim de retraer e fazer cessar o dano que el-Rei neles fazia em Alentejo, e cercaram Trancoso; e depois de combatido e tomado por força, destruiram o lugar ..." (Duarte Galvão, Cap. XLI.)

65.5
"(Sentiu-o a vila e viu-o a serra dela)": a consulta da fonte (Duarte Galvão) prova que o Poeta se refere à vila de Palmela e à serra de Azeitão, onde derrotou um exército do rei de Badajoz (Balhadouce).
Ort.: sojugada (por subjugada).

65.6
"Que a socorrê-la vinha diligente": "[os Mouros] vinham à longa sem ordem a gram pressa para socorrer Cezimbra ..." (Duarte Galvão, cap. XLIII.)

66.1-4
"O Rei de Badajoz era, alto Mouro": o rei de Badajoz, alto Mouro, isto é, de alta dignidade; Inúmeros peões, de armas e de ouro / Guarnecidos ...": "de armas e de ouro guarnecidos" não pertence a "inúmeros peões", mas a "cavalos [por cavaleiros] furiosos".

67.2-8
"Na gente dá, que passa bem segura": desprevenida (v. igual sentido em I.99.2 e II.46.5; "Nô mais que sessenta de cavalo": "levando consigo [D. Afonso] sessenta bons cavaleiros e alguma gente de pé e besteiros" (Duarte Galvão, Cap. LXIII). Nô mais é empregado também na lírica (v. X.145.1).

68.2
"... incansábil ...": é latinismo.

69.4
"Ou por segredos que homem não conhece": homem empregado com sentido indefinido.

70.7
"Que em ferros quebra as pernas, ...": "... e aconteceu que o cabo do ferrolho não ficara bem colhido ao abrir das portas, e o cavalo assim como ia correndo, topou nele com uma ilharga, de guisa que se feriu muito e quebrou a perna acerca de todo a el-Rei ..." (Duarte Galvão, cap. XLIV.)

71.1-5 e 72.1-6
"Ó famoso Pompeio, não te pene": Pompeu, o Magno (107-48 a. C.). Distinguiu-se nas campanhas de África. Em 60 formou, contra o Senado, com César e Crasso, o primeiro triunvirato. Sustentado pelo Senado, entrou em rivalidade com César e foi nomeado em 52 cônsul único. Depois de longas lutas foi vencido em Farsalo (48) e assassinado à ordem do rei Ptolemeu, rei do Egipto, quando procurava refúgio junto dele; "... a justa Némesis ...": deusa que personifica a vingança divina; "Posto que o frio Fásis ou Siene,": o Fásis, rio da antiga Cólquida, que desce do Cáucaso e tem a sua foz no Ponto Euxino. É actualmente o Rion: Siene, cidade do antigo Egipto, nos confins da Etiópia. É hoje Assuão; em 71.1-5 e 72.1-6 o Poeta teve sob os olhos os vv. 583-594 do liv. II de Civilis Belli sive Pharsaliae, de Lucano: "Nenhuma terra do mundo existe onde eu não tenha tido vitórias, antes, por onde quer que o sol aquente, está cheio dos meus troféus e triunfos. O norte conhece-me por vencedor pelas águas geladas do rio Fásis; no curso meridional a quente Egipto até Siene, onde as sombras não se rodeiam por parte alguma; os Ocidentais viram e temem o meu poder; e o espanhol rio Bétis, que é o último que alcança a fugidora Tétis. Os Árabes conheceram o meu jugo e os fortes guerreiros Heníocos; e os Colcos tão nomeados pelo velo de ouro que perderam. Os Capadoces temem as minhas bandeiras e Judeia, dada aos sacrifícios do deus não conhecido e os afeminados Sofenos. Eu sujeitei os Arménios e os feros Cilícios, com os moradores do áspero monte Tauro: de modo que fiz a guerra contra todas as estranhas gentes e as hei vencido; e meu sogro toma a guerra civil, que eu não fiz." Foi MC o primeiro a citar Lucano.

71.7
"O Bootes gelado ...": Bootes é a constelação do Boieiro (v. I.21.1-8).

72.7-8
"As águas dos dous rios ...": o Tigre e o Eufrates. Atroces é latinismo; "... cuja fonte / Está noutro mais alto e santo monte": no Paraíso, segundo o "Génesis", II.10.14.

73.1-8
"... desde o mar de Atlante / Até o Cítico Tauro": desde o oceano Atlântico até à cadeia de montanhas da península da Ásia Menor, marginando o Mediterrâneo diante de Rodes e de Chipre; "Se o campo Emátio ...": é a Macedónia, mas aqui abrange a Tessália, onde fica a cidade de Farsalo; "Que vença o sogro a ti e o genro a este!": o sogro é Júlio César, que venceu Pompeu; o genro é Fernando II, rei de Leão, porque a filha de D. Afonso Henriques, D. Urraca, casou em 1165 com o rei de Leão. Este repudiou-a em 1175.

74.3-5
"Despois que em Santarém ... / Em vão, dos Sarracenos foi cercado": Duarte Galvão, no cap. XLVI, fala de "Alboiaque", rei de Sevilha; que veio cercar D. Afonso, em Santarém, e foi destroçado. O rei de Leão chegou a entrar em Portugal para auxiliar o sogro, mas não foi necessário o seu auxílio; "E despois que do mártire Vicente": Duarte Galvão, no cap. XLVII, trata de como o corpo de S. Vicente foi achado no Sacro Promontório (hoje cabo de S. Vicente). No cap. XLVIII, de como o corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa. S. Vicente foi martirizado sob Diocleciano em Valência, em 304.
Ort.: mártire (por mártir).

74.7-8
"Do Sacro Promontório": hoje cabo de S. Vicente; "À cidade Ulisseia ...": à cidade de Lisboa.

75.1-8
"... o lasso velho": lasso (cansado) é latinismo; "... co belígero aparelho": com os aprestos de guerra; "O rio que Sevilha vai regando": o rio Guadalquivir (v. 85.4-5). Belígero é latinismo.

76.2
"... até que veja": enquanto não vir.

77.1
"Já se ajuntam do monte a quem Medusa": juntam-se os naturais do monte Atlas. A lenda diz que Perseu mudou Atlas em rochedo, apresentando-lhe a cabeça de Medusa. Esta era uma das três Górgonas, que habitavam no Extremo Ocidente, não longe do país das Hespéridas. Os olhos destes três monstros eram tão faiscantes e o olhar tão penetrante que quem quer que o visse ficava mudado em pedra. Como gigante, Atlas entrou na luta dos gigantes e Zeus castigou-o, fazendo-o "ter o Céu", isto é, sustentar a abóbada celeste, até que foi convertido em pedra. Estrabão chama às Hespéridas e às Górgonas uma invenção (G, 7.3.6).

77.3-8
"Já vêm do promontório de Ampelusa / E do Tinge ...": o promontório de Ampelúsia é o cabo Espartel, entre Ceuta e Tânger (Tinge). Diz Plínio, V.I.2 "promontorium Oceani extremum Ampelusiae nominatur a Graecis"; "... que assento foi de Anteu": o gigante Anteu foi casado com Tinge e teve um filho desta, de nome Sófax, que reinou na Mauritânia. Sófax fundou a cidade de Tíngis (hoje Tânger) em honra de sua mãe; "O morador de Ábila não se escusa": Ábila é uma das colunas de Hércules. Olivar, em nota a Mela, De situ orbis, edição de 1748, p. 36 (I, V, 17), diz: "Abylam] Nunc Aceuta: oppidum etiam Lusitanorum. hinc sumit initium mons ille, qui nunc dicitur La Siera dal Marca: Siera Híspanice sonat montem: plenus est hic simiis"; "Todo o reino que foi do nobre Juba": Juba, rei da Mauritânia. É natural que se trate de Juba II, que foi historiador e geógrafo.

78.1-7
"Entrava, com toda esta companhia / O Miralmomini em Portugal / Treze Reis mouros leva de valia": a Crónica de Cinco Reis e Duarte Galvão chamam-lhe "Almiramolim", imperador dos crentes; "Dom Sancho vai cercar em Santarém": "Outro dia, quinta-feira pela manhã, véspera de S. Pedro e S. Paulo, abalou Almiramolim com toda a sua gente e chegou a Santarém" (Duarte Galvão, cap. LVII). A auxiliar D. Sancho, saiu D. Afonso, de Coimbra. É o que diz a est. 80. Duarte Galvão conta ainda: "E foi ali mui ferido Almiramolim" – o que suscita o comentário do Poeta em 82.3-4.

79.2-6
"Não lhe aproveita já trabuco horrendo, / Mina secreta, aríete forçoso": trabuco, instrumento de guerra com que se atiravam grandes pedras; aríete, máquina de bater muralhas ou portas, terminando em cabeça de carneiro; aríete forçoso, aríete possante; "... e acordo generoso": presença de espírito.

80.1-8
"Mas o velho ...": o Poeta insiste na avançada idade de D. Afonso (v. III.75.2), mas pode ser que queira referir-se a homem experimentado; "... na cidade cujo prado / Enverdecem as águas do Mondego": perífrase para indicar Coimbra; "... do Mauro povo cego": cego por não ter a fé cristã; "Que não perde a presteza co a idade": que é conclusivo: pois.

81.4-6
"... os Mouros tem desbaratados": concordância com o complemento directo; "De marlotas ..." vestido mourisco com que se cinge e aperta o corpo.

82.1-3
"Logo todo o restante se partiu / De Lusitânia, postos em fugida": concordância de postos com uma palavra de sentido colectivo – o restante; "O Miralmomini só não fugiu, / Porque, antes de fugir, lhe foge a vida": o Almiramolim ficou muito ferido em Santarém, mas veio a morrer.

83.2-8
"... Príncipe subido,": Príncipe eminente; "A pálida doença lhe tocava / com fria mão ...": o Poeta objectiva a pálida doença que vem tocar com fria mão o corpo enfraquecido; "A triste Libitina ...": a deusa dos mortos. D. Afonso Henriques morreu em 6 de Dezembro de 1185.

84.2
"E dos rios as águas saüdosas": a edição princeps tem «e do rios», com supressão do s antes do r.
Ort.: valerosas (por valorosas).

85.4-5
"Quando o Bétis de sangue se tingia / E o bárbaro poder desbaratava": v. III.75.5-8.

86.3-4
"A cidade de Silves tem cercado": com o auxílio da "Germânica armada" (flamengos e alemães) que formou a Terceira Cruzada (1189-1192) os Portugueses atacaram Silves, que caiu em 6 de Julho de 1189; "Cujos campos o Bárbaro lavrava"; o Bárbaro é o Muçulmano.

87.1-5
"O roxo Federico, ...": Frederico I, imperador da Alemanha (1123-1190), o Barba-Roxa ou Barba-Ruiva; "Quando Guido, co a gente em sede acesa": Guido de Lusignan, último rei de Jerusalém, rendeu-se a Saladino, sultão do Egipto e da Síria, porque as suas tropas morriam de sede. A batalha de Tiberíade terminou pela captura de Guido.

88.1-4
"Mas a fermosa armada, ... / Já que em serviço vai do santo Marte": a fermosa armada quis ajudar Sancho porque ia pelejar na Guerra Santa.
Ort.: fermosa (por formosa).

89.6
"Da soberba Tuí ...": nas lutas com a monarquia de Leão (Afonso IX) os Portugueses tomaram Tui e outras terras na Galiza.

90.6
"Alcáçare do Sal, por derradeiro": Alcácer do Sal tinha sido tomada por D. Afonso Henriques em 24 de Junho de 1157, mas foi perdida pouco depois e reconquistada definitivamente, com o auxílio de cruzados, em 18 de Outubro de 1217.
Ort.: estruídos (por destruidos).

91.4-5
"Que de outrem quem mandava era mandado": que, quem mandava, de outrem era mandado; "De governar o Reino, que outro pede": de governar o Reino que pede outro rei.

92.2-8
Nero (54-68 d. C.) foi um imperador cruel e depravado. Enquanto Roma ardia, viram-no cantar ao som da lira um hino sobre o incêndio de Tróia. Revoltas no Império levaram à sua proscrição por um decreto. Perseguido, fez-se matar por um liberto; "Nem tão mau como foi Heliogabalo": Heliogábalo é o cognome do imperador romano Vario Avito Bassiano, aclamado pelos soldados sob o nome Marco Aurélio Antonino (n. em 204 e m. 222). Não houve extravagância nem devassidão que não inventasse. Os pretorianos assassinaram-no e lançaram o seu cadáver ao Tibre. Viveu dezoito anos e teve o Império quatro anos; "Nem como o mole Rei Sardanapalo": o último rei do império assírio, Nínive. Ignora-se a data do nascimento, mas morreu em 625 a. C. Foi um conquistador militar, déspota e cruel na vitória. Apoderando-se de Babilónia, praticou os maiores horrores para atemorizar o povo. Mas há outro aspecto em Sardanapalo: o da sua devassidão. Diz Textor, Officina: "Omnium (quos enervavit mollicies & deliciae corrumperunt) principem locum maioremque apud posteros ignominiam mervit Assyriorum rex Sardanapalus." Textor cita justino.

93.3
"Nem tinha, como Fálaris, ...": é um exemplo dos tiranos da Sicília, no pior sentido do termo. Houve outros de quem o povo colheu benefícios.

94.4-5
"Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado": morreu exilado em Toledo, a 4 de Janeiro de 1248; "Este, que Afonso o Bravo se chamou": costuma-se dar o cognome de Bravo a D. Afonso IV, e não a D. Afonso III. O cognome de D. Afonso IV é posterior a Os Lusíadas. V. JMR, FL, pp. 115-117.

95.1-7
"Da terra dos Algarves, que lhe fora / Em casamento dada, ...": nas pazes entre o rei de Portugal e o de Castela e apesar de a condessa Matilde de Bolonha ser ainda viva, ajustou-se o casamento de D. Afonso III com D. Beatriz, filha ilegítima de Afonso X e de Maria Guilhen de Gusman em Maio de 1253. Outra condição de pazes era que o rei de Portugal cederia temporariamente a Afonso X o usufruto do Algarve e das terras a oriente do Guadiana, até que o seu primeiro filho, se os houvesse de D. Beatriz, completasse 7 anos de idade, e então seria dado à coroa portuguesa o domínio pleno do Algarve. O Poeta simplifica as circunstâncias históricas; "E acabou de oprimir a nação forte": alude aos Mouros. Oprimir no sentido de submeter. Forte no sentido de pertinaz.

96.4
"Da liberalidade Alexandrina": à altura de Alexandre Magno. A contrafacção de Os Lusíadas imprimiu: "Da liberdade Alexandrina!"

97.2
"O valeroso ofício de Minerva": Minerva identificava-se com Atena. Atena preside à actividade intelectual, principalmente escolar.
Ort.: valeroso (por valoroso).

97.3-8
"E de Helicona as Musas fez passar-se": sobre Hélicon, v. nosso comentário em I.4.8. A forma "Helicona" é de Virgílio, na Eneida, em duas situações idênticas: "Pandite nunc Helicona, deae" (VII.641) e "Pandite nunc Helicona, deae" (X.163); "Tudo o soberbo Apolo aqui reserva": a montanha do Hélicon ficava na Beócia e era consagrada a Apolo e às Musas; "Aqui as capelas dá ...": capelas, grinaldas de flores (neste caso do bácaro e do louro); "Do bácaro e do sempre verde louro": na Égloga VII, Vírgílio faz dizer a Thirsis: "Aut, si ultra placitum laudarit, baccare frontem cingite". Portanto, com o bácaro cingia-se a fronte. O bácaro é uma planta, mas a sua identificação tem sido muito discutida. É o Gnaphalium Sanguineum L. CF, FL, p. 25 supõe que Camões cita o bácaro como reminiscência clássica. Nunca o terá visto. Bailly cita-o como planta cuja raiz fornece um óleo aromático. Identifica-o com o nardo silvestre.

98.5
"Mas, despois que a dura Átropos cortou": Atropos é, das três Parcas, a que corta o fio da vida.

99.1-4
"... as soberbas Castelhanas": o desprezo votado por el-rei de Castela Afonso XI a sua esposa, D. Maria, filha do nosso rei Afonso IV, e o embargo posto à passagem de D. Constança, filha de D. João Manuel, para casar com D. Pedro, obrigaram D. Afonso IV a novas guerras. Depois de repetidas correrias de um lado e do outro a paz foi restabelecida em 1339 ou 1340.

100.1-8
"Nunca com Semirâmis gente tanta": Semirâmis é aqui evocada pela expedição à Índia; v. nosso comentário a III.126.1-3; "Veio os campos Idáspicos enchendo»: sobre o Hidaspe, v. nosso comentário a I.55.2; "Nem Átila ... /... / Gótica gente trouxe tanta ...": Átila era rei dos Hunos (437-453). Os Hunos eram de raça mongólica, e não germânica. Ou generalização do Poeta ou lapso; "Foi nos campos Tartés[s]ios ajuntada": antiga cidade, na foz do Bétis (Guadalquivir), conhecida pelas suas riquezas.

101.4-6
"Já perdido ũa vez, ...": com o fim do império visígótico e invasão muçulmana em 711; "Lhe mandava a caríssima consorte": uma mentira poética. V. o nosso comentário a III.99.1-4. Inexpugnábil é latinismo.

102.6
"Pelos ebúrneos ombros espalhados": da cor do marfim.

105-2-6
"O corrente Muluca se congela": MC: "Mulucha he rio do Reyno de Fez, como quer Ptolomeo na primeira tavoa de Mauritania Tingitana, lib. 4. Os Mouros lhe chamam hoje Munzemar". Modernamente identifica-se com o Moluia. Nasce no Médio Atlas e desagua no Mediterrâneo. Corre entre a Argélia e Marrocos. Note o género de "corrente"; "De pai o verdadeiro amor assela": certifica, promete com segurança.
Ort.: acude (por acode).

106.1-6
"Não de outra sorte ...": v. Virgílio, E, I.227-296; o raio infando": terrível, horrível. Infando é latinismo.

108-3-5
"... por cima / De todos leva o colo alevantado": o busto; "... esforça e anima ...": palavras de sentido próximo.

109.2-3
Nos campos de Tarifa estão defronte": cidade do extremo sul da Espanha. O rei de Marrocos e o rei de Granada tinham posto cerco à cidade de Tarifa. À vista dos exércitos cristãos descercaram-na, preparando-se assim para uma batalha campal. Entretanto 1000 cavaleiros cristãos e 4000 infantes entraram, apesar dos esforços contrários, em Tarifa, para agirem no momento oportuno; "Da grande multidão da cega gente": v. nosso comentário a III.80.1-8.

110.1-6
"Estão de Agar os netos quási rindo": os Agarenos, procedentes de Ismael, filho de Agar, escrava de Abraão, que apoucaram as forças cristãs; "... possuindo / Está o famoso nome Sarraceno": o Poeta deriva os Agarenos da escrava Agar e Sarracenos de Sara (ou Sarra), legítima esposa de Abraão.

111.1-3
"Qual o membrudo e bárbaro Gigante": Golias; "Do Rei Saul, com causa tão temido": Saul, o primeiro rei dos Hebreus, que reinou na segunda metade do século XI a. C. Encontrando-se o rei Saul em guerra com os Filisteus, o gigante Golias desafiava todos os dias os Israelitas para um combate singular; "Vendo o Pastor inerme ...": David, sucessor de Saul. David com uma funda atirou uma grande pedra que, batendo na fronte de Golias, o matou. Inerme (desarmado) é latinismo.

112.4
"... horrífico ...": é latinismo.

113.6
"Fazendo de seu sangue bruto lago": feio lago. Talvez do italiano brutto.

114.1-7
"Com esforço tamanho estrui ...": ou estrói (por destrói); "... que em pouco espaço": v. III56.2; "Vai ajudar ao bravo Castelhano": é duvidoso que tal ajuda se tenha verificado.

115.1-4
"Já se ia o Sol ardente recolhendo / Pera a casa de Tétis ...": a casa de Tétis é o Oceano. Não confundir Tethys, filha do Céu e da Terra, esposa do Oceano, com Thetis, filha de Nereu e de Dóris, e, portanto, uma das Nereidas; "... e inclinado / Pera o Ponente, o véspero trazendo": véspero é o nome da segunda das divisões da noite e equivale a vespora empregada por Rui de Pina ao descrever a Batalha do Salado: "que sem sessar da hora de terça durou até vespora" (cap. LIX). A batalha começou duas horas depois do nascer do Sol e durou até à noitinha (v. AFGV, NC, fasc. 2.º, p. 32). É tradicional considerar-se este verso como referente a Vénus, Estrela da Tarde (Véspero); "Estava o claro dia memorado": a integração deste verso nos anteriores suscita dificuldade e FS viu isso e procurou explicar. Segundo penso, é só isto: "o claro dia memorado (ou memorável) estava já inclinado para o poente, trazendo o véspero, isto é, o cair da noite". Além de "memorado", o dia foi "claro", isto é, insigne.
Ort.: mortindade (por mortandade).

116.1-6
"Não matou a quarta parte o forte Mário": vitória de C. Marius sobre os Ambrões e Teutões, tribos germânicas, em Aix, no ano 101 a. C. Os soldados romanos tiveram de beber a água de um ribeiro na posse do adversário, em que havia muito sangue derramado (Plutarco, Marius, XVI-XX); "Nem o Peno, ...": Poenus, cartaginês. É Aníbal, célebre inimigo dos Romanos, a quem ganhou a batalha de Canas, na Apúlia, 216 a. C. (T. Lívio, XXII.XLIII-LII); "... asperíssimo contrário ... / ... de nascimento": o ódio de Aníbal aos Romanos tinha sido herdado de seu pai, Amílcar.

117.2-4
"Mandar ao Reino escuro de Cocito": o "Rio dos Gemidos", um afluente do Aqueronte, um dos rios dos Infernos; "Quando a santa Cidade desfizeste / ... / ... ó nobre Tito": Tito, futuro imperador romano (79 a 81), tomou e arruinou Jerusalém (70); "Do povo pertinaz no antigo rito": que não se convertia ao "novo rito", o Cristianismo.

117.7-8
"Que assi dos Vates foi profetizado, / E despois por JESU certitificado": vários profetas do Antigo Testamento profetizaram a destruição de Jerusalém, entre eles Daniel e Zacarias. E no Novo Testamento o próprio Jesus Cristo disse: "Quando virdes, pois, que Jerusalém é sitiada por um exército, então sabei que está próxima a sua desolação ... E cairão ao fio da espada e serão levados captivos a todas as nações, e Jerusalém será pisada dos gentios, até que os tempos das nações acabem de cumprir-se" (v. "S. Lucas", XXI.20-24).

118-5-8
"... dino da memória / Que do sepulcro os homens desenterra": a fama; "Aconteceu da mísera e mesquinha": em IV.90 repete os mesmos adjectivos com a mesma significação de infeliz, desgraçada; "Que despois de ser morta foi Rainha": em Junho de 1360, em Cantanhede, D. Pedro declarou perante testemunhas que havia uns sete anos recebera como legítima mulher, por palavras de presente, a D. Inês de Castro. Em Coimbra as pretensas testemunhas do acto depuseram. E na estátua jacente do túmulo de D. Inês o rei impôs-lhe a coroa de rainha como se rainha tivesse sido. É esta desvairada paixão que o Poeta vai narrar-nos em um dos seus mais belos episódios.

119.3-4
"Deste causa à molesta morte sua / Como se fora pérfida inimiga": molesto (1. molestus), penoso, chocante; como se ela fosse tua pérfida inimiga.

120.1-5
"Estavas, linda Inês, posta em sossego": este trágico episódio aconteceu em 7 de Janeiro de 1355, tendo sido protagonistas da tragédia D. Afonso IV, o príncipe D. Pedro, D. Inês de Castro e os conselheiros Álvaro Gonçalves, Pedro Coelho e Diogo Lopes Pacheco; "Nos saudosos campos do Mondego": nos campos que inspiram saudades pelos aspectos particulares da paisagem ou da natureza.
Ort.: fructo, na edição princeps (por fruto).

121.1-2
"Do teu Príncipe ali te respondiam / As lembranças ...": às tuas lembranças correspondiam as do teu Príncipe.
Ort.: fermosos (por formosos).

122.2-7
"Os desejados tálamos enjeita": tálamo, leito nupcial. D. Pedro recusava todos os casamentos; "Vendo estas namoradas estranhezas / O velho pai sesudo, ...": namoradas estranhezas, demonstrações de exaltado amor; sesudo, prudente, sensato; "... que respeita / O murmurar do povo e a fantasia / Do filho ...": o murmurar do povo, o povo de que fala o Poeta nas est. 124 e 130 foi estranho a esta decisão; a fantasia, o capricho; fantasia pertence para vendo: o velho pai sesudo, vendo estas namoradas estranhezas e (vendo) a fantasia do filho ...

123.5
"Que furor consentiu que a espada fina": furor, delírio, loucura; neste lugar furor é sinónimo de fúria; fina, cortante. O Poeta entrega aos cavaleiros a morte de Inês, o que é embelezamento poético.
Ort.: indina (por indigna).

124.1
"Traziam-a os horríficos algozes": borríficos, que inspiram horror (latinismo).

125.1
"Pera o céu cristalino alevantando": imitação de Virgílio, E, II.405-406:

ad caelum tendens ardentia lumina frustra,
lumina, nam teneras arcebant vincula palmas
.

125.4
"Um dos duros ministros rigorosos": sobre ministros, v. nosso comentário a I.67.2; duros, que não se deixam comover fàcilmente; rigorosos, severos em demasia.
Ort.: orfindade (por orfandade).

126.1-3
"... cuja mente": índole, condição; "E nas aves agrestes ...": aves bravias, de rapina; "Como co a mãe de Nino já mostraram": na Síria havia uma deusa de nome Dérceto, que teve uma menina de um jovem sírio, Caistro. Mas depois de ela nascer a deusa envergonhou-se, abandonou a filha e fez morrer o pai desta. Pombas criaram miraculosamente a criança, furtando aos pastores o leite e o queijo necessários. Os pastores acabaram por descobrir a menina, que era de uma grande beleza. Levaram-na ao chefe, que lhe deu o nome de Semíramis, isto é, "que vem das pombas". É a mãe de Nino. Ninos, rei de Babilónía, desposou Semíramis. O filho chamou-se Nínias (e não Nino). A história de Semíramis foi relatada por Diodoro Sículo.

126.8
"E cos irmãos que Roma edificaram": Rómulo e Remo, filhos de Rea Sílvia, uma vestal, e de Marte. Amúlio, tio de Rea, mandou expor as crianças ao pé do Palatino, junto ao Tibre. Aí as duas crianças foram amamentadas por uma loba, se é que esta loba não era uma mulher, Acca Larentia.
Ort.: piadoso (por piedoso).

127.3-8
"Fraca e sem força ...": aparentemente a expressão é pleonástica. Pode pensar-se, porém, que o Poeta, chamando fraca a Inês tem em vista o seu carácter feminil; sem força, por se ver indefesa. O Poeta em vários lugares procura tirar efeito da expressão da mesma ideia em forma positiva e negativa (v. II.76.2, VIII.75.2, X.144.2 e X.148.8); "... só por ter subjeito": submetido (subjeito é latinismo); "Pois o não tens à morte escura dela": inditosa; "... a culpa que não tinha": em vez de tenho, por causa da rima.

128.7
"Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente": entre os bárbaros das regiões boreais ou na África Setentrional.

129.5-7
"Ali, co amor intrínseco e vontade": amor intrínseco, muito interior, oculto a todos (v. III-24.1); "Naquele por quem mouro, indicativo presente do verbo morrer; "Estas relíquias suas coisa preciosa e rara, parte pequena de um todo que se não pode possuir. Inês contenta-se em ficar com os filhos de D. Pedro.

130.1-5
"... o Rei benino": por benigno; "Arrancam das espadas de aço fino": segundo os dados históricos fornecidos pelo Doutor António de Vasconcelos, Inês de Castro foi julgada pelo rei, ouvidos os de seu Conselho, e condenada à morte. Em consequência, foi degolada no próprio Paço da Rainha Santa Isabel, em Coimbra, no dia 7 de Janeiro de 1355.

131.1-4
"Qual contra a linda moça Policena": numa tradição tardia admite-se que Policena, uma das filhas de Príamo e de Hécuba, foi sacrificado sobre o túmulo de Aquiles. Este sacrifício tinha por fim quer favorecer uma feliz travessia dos navios aqueus, quer apaziguar a sombra de Aquiles, que apareceu em sonhos a seu filho para lhe ordenar esta oferenda. O Poeta segue esta última versão; "Co ferro o duro Pirro se aparelha": Pirro, filho de Aquiles.

132.2-6
"No colo de alabastro, que sustinha / As obras ...": as obras são os seios, sustidos pelo colo. Inês foi cognominada a Colo de Garça; "Aquele que despois a fez Rainha": verso semelhante ao da estância III.118.5-8. Ver aí o nosso comentário; "As espadas banhando, e as brancas flores, / Que ela dos olhos seus regadas tinha": banhando as espadas no colo de alabastro e (banhando) as brancas flores. Talvez a pele dos seios, como pretendeu Afrânio Peixoto (v. AP, EC, pp. 268 e segs., e do mesmo "Brancas flores", in Lusitania, II, pp. 209 e segs.); "Que ela dos olhos seus regadas tinha": particípio em concordância com o complemento directo. Já se esclareceu que não houve morte pela espada.

133.3
"Como da seva mesa de Tiestes / Quando os filhos por mão de Atreu comia!": Atreu, rei de Micenas, vingou-se de agravos que tinha de seu irmão Tiestes, expulsando-o de Micenas e dando-lhe num festim os três filhos a comer. Seva (cruel) é latinismo.

134.2-4
"Assi como a bonina, que cortada / Antes do tempo foi, cândida e bela": cândida e bela pertencem para bonina; "Sendo das mãos lacivas maltratada": lacivas, brincalhonas, travessas. Lacivas (por lascivas) é latinismo; "... que a trouxe na capela": v. nosso comentário a III.97.3-8; "Tal está morta a pálida donzela": no sentido de mulher ainda jovem.

135.1-8
"As filhas do Mondego ...": esta estância é recordação pessoal do Poeta dos seus tempos de Coimbra. Repare-se naquele "O nome lhe puseram, que inda dura, / Dos amores de Inês ...". Durava e dura ainda.

136.3-8
"Que, em tomando do Reino a governança, / A tomou dos fugidos homicidas": foi um escambo vergonhoso e afrontoso. D. Pedro de Portugal deu a D. Pedro de Castela os inimigos deste que estavam em Portugal e este deu a D. Pedro de Portugal os conselheiros de seu pai, menos Diogo Lopes Pacheco, que conseguiu fugir. Assim lhe vieram às mãos Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves. Ao primeiro mandou D. Pedro arrancar o coração pelo peito e ao segundo pelas costas; "Que com Lépido e António fez Augusto": alude ao triunvirato que António, Augusto (Octávio) e Lépido fizeram contra Bruto e Cássio. Para se vingarem de seus inimigos publicaram uma lista dos mesmos, que haviam de ser mortos. Cícero foi entregue a Octávio, apesar de ser seu amigo íntimo.

137.8
"Que o vagabundo Alcides ou Teseu": vagabundo, errante. Alcides é Hércules, por ser descendente de Alceu. Teseu é o herói da Ática. O istmo de Corinto estava infestado de salteadores: matou sucessivamente Perifetes (apoderando-se da sua cacheira), Sínis, Sciron, Cercyon, Damastes, cognominado Procrustes.

138.5
"Que, vindo o Castelhano devastando": houve correrias de parte a parte em 1369 com cerco a Guimarães pelo rei D. Henrique de Castela. No contrato de pazes D. Fernando devia casar com a infanta D. Leonor, filha do rei de Castela. Em 1372 e 1373 nova invasão do rei de Castela, que chegou a entrar em Lisboa (1373). D. Fernando permaneceu inactivo em Santarém.

139.2-4
"De tirar Lianor a seu marido": Leonor Teles, mulher de João Lourenço da Cunha. EI-rei D. Fernando promoveu a anulação do casamento e casou com ela; "... de enlevado / Num falso parecer mal entendido": enlevado, extasiado numa opinião desarrazoada e mal entendida.

140.3-4
"Os que foram roubar a bela Helena": Helena, mulher de Menelau, raptada por Páris, filho de Príamo, rei de Tróia; "E com Ápio também Tarquino o viu": Numa longa narrativa T. Lívio (III.XLIV-LVIII) historia a acção de Ápio Cláudio, que procurou meio de atentar contra o pudor de uma donzela de nome Virgínia, por fim apunhalada pelo pai, L. Verginius, centurião graduado. Ápio, acusado pelos tribunos da plebe, sendo decênviro, suicidou-se (449 a. C.). Sexto Tarquínio, filho de Tarquínio, o Soberbo, rei de Roma, ultrajou Lucrécia, dama romana, que se matou de desespero. Este acontecimento serviu de pretexto à abolição da monarquia em 510 a. C.

140.5
"Pois por quem David Santo se condena?": David, 2.º rei dos Hebreus (entre 1055 e 1014 a. C.), sucessor de Saul. Nasceu em Belém e pertencia a uma família importante da tribo de Judá. No meio do esplendor do seu reino, David cometeu um crime de adultério com Betsabé, mandando matar o marido, Úrias. O filho do adultério morreu. Sucederam-se os crimes na sua casa e família. Uma grande fome assolou o reino nos últimos anos da sua vida e uma terrível peste. Por último, a rebelião de Adónias, seu filho primogénito; se condena: é condenado.

140.6-8
"Ou quem o Tribo ilustre destruiu / De Benjamim? ...": A tribo de Benjamim foi destruída por outras tribos de Israel pelas desonestidades praticadas pelos moradores de Gabaa, cidade da tribo de Benjamim, na pessoa de uma mulher da tribo de Levi; "Por Sarra Faraó, Siquém por Dina": Sara, no Egipto, foi chamada para o harém do rei por ter dito que era irmã de Abraão. A casa do Faraó teria sido afligida com grandes pragas por causa deste facto; a paixão de Siquém, filho de Hemor, por Dina, filha de Jacob e de sua mulher, Lia, provocou a morte, pelos cunhados de Siquém e Hemor, dos indivíduos do sexo masculino que havia na cidade (também chamada Siquém), que saquearam.

141.2-7
"Um inconcesso amor ...": proibido. Inconcesso é latinismo; "Bem no filho de Almena se parece": Hércules foi escravo em casa de uma rainha da Lídia, filha do rei Iardanos, de nome Ônfale. Enquanto esteve em casa desta, Hércules usava vestidos de senhora e fiava linho aos pés de Ônfale. Esta, pelo contrário, revestia-se com a famosa pele de leão do herói; "De Marco António a fama se escurece": Foi a ligação de Marco António com Cleópatra, rainha do Egipto, que levou aquele à ruína. Derrotado na batalha naval de Áccio, contra César (31 a. C.), suicidou-se; "Tu também, Peno próspero, ...": Peno é Aníbal, general cartaginês. Ter-se-ia apaixonado por uma moça da ApúIia e isto teria provocado o seu atraso no ataque a Roma e consequente perda da Itália. Sobre a possível fonte, v. JMR, FL, p. 441.

142.6
"De um vulto de Medusa ...": v. nosso comentário a III.77.1.

143-1-8
"Quem viu um olhar seguro ...": seguro, constante; "Mas antes, tendo livre a fantasia, / Por muito mais culpado o julgaria": mas antes de ter essa experiência, com o espírito livre, tê-lo-ia por mais culpado.