Os Lusíadas - Canto II

 

 

 

 


Os Lusíadas

 

 


Canto II

 

1
JÁ neste tempo o lúcido Planeta
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava à desejada e lenta meta,
A luz celeste às gentes encobrindo;
E da casa marítima secreta
Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
Às naus, que pouco havia que ancoraram.

2
Dantre eles um, que traz encomendado
O mortífero engano, assi dizia:
– «Capitão valeroso, que cortado
Tens de Neptuno o reino e salsa via,
O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado
Da vinda tua, tem tanta alegria
Que não deseja mais que agasalhar-te,
Ver-te e do necessário reformar-te.

3
«E porque está em extremo desejoso
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada;
E porque do caminho trabalhoso
Trarás a gente débil e cansada,
Diz que na terra podes reformá-la,
Que a natureza obriga a desejá-1a.

4
«E se buscando vás mercadoria
Que produze o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo
Com que faças o fim a teu desejo.»

5
Ao mensageiro o Capitão responde,
As palavras do Rei agradecendo,
E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
Não entra pera dentro, obedecendo;
Porém que, como a luz mostrar por onde
Vá sem perigo a frota, não temendo,
Cumprirá sem receio seu mandado,
Que a mais por tal senhor está obrigado.

6
Pergunta-lhe despois se estão na terra
Cristãos, como o piloto lhe dizia;
O mensageiro astuto, que não erra,
Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria.
Desta sorte do peito lhe desterra
Toda a suspeita e cauta fantasia;
Por onde o Capitão seguramente
Se fia da infiel e falsa gente.

7
E de alguns que trazia, condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Por que pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Por que notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e por que vejam
Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

8
E por estes ao Rei presentes manda,
Por que a boa vontade que mostrava
Tenha firme, segura, limpa e branda,
A qual bem ao contrário em tudo estava.
Já a companhia pérfida e nefanda
Das naus se despedia e o mar cortava:
Foram com gestos ledos e fingidos
Os dous da frota em terra recebidos.

9
E despois que ao Rei apresentaram
Co recado os presentes que traziam,
A cidade correram, e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam;
Que onde reina a malícia, está o receio
Que a faz imaginar no peito alheio.

10
Mas aquele que sempre a mocidade
Tem no rosto perpétua, e foi nascido
De duas mães, que urdia a falsidade
Por ver o navegante destruído,
Estava nũa casa da cidade,
Com rosto humano e hábito fingido,
Mostrando-se Cristão, e fabricava
Um altar sumptuoso que adorava.

11
Ali tinha em retrato afigurada
Do alto e Santo Espírito a pintura,
A cândida Pombinha, debuxada
Sobre a única Fénix, virgem pura;
A companhia santa está pintada,
Dos doze, tão torvados na figura
Como os que, só das línguas que caíram
De fogo, várias línguas referiram.

12
Aqui os dous companheiros, conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o Mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorífera, queimava
O Tioneu, e assi por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.

13
Aqui foram de noite agasalhados,
Com todo o bom e honesto tratamento
Os dous Cristãos, não vendo que enganados
Os tinha o falso e santo fingimento.
Mas, assi como os raios espalhados
Do Sol foram no mundo, e num momento
Apareceu no rúbido Horizonte
Na moça de Titão a roxa fronte,

14
Tornam da terra os Mouros co recado
Do Rei pera que entrassem, e consigo
Os dous que o Capitão tinha mandado,
A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
E sendo o Português certificado
De não haver receio de perigo
E que gente de Cristo em terra havia,
Dentro no salso rio entrar queria.

15
Dizem-lhe os que mandou que em terra viram
Sacras aras e sacerdote santo;
Que ali se agasalharam e dormiram
Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
E que no Rei e gentes não sentiram
Senão contentamento e gosto tanto
Que não podia certo haver suspeita
Nũa mostra tão clara e tão perfeita.

16
Co isto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que subiam,
Que levemente um ânimo se fia
De mostras que tão certas pareciam.
A nau da gente pérfida se enchia,
Deixando a bordo os barcos que traziam.
Alegres vinham todos porque crêm
Que a presa desejada certa têm.

17
Na terra cautamente aparelhavam
Armas e munições, que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E nesta treïção determinavam
Que os de Luso de todo destruíssem,
E que, incautos, pagassem deste jeito
O mal que em Moçambique tinham feito.

18
As âncoras tenaces vão levando,
Com a náutica grita costumada;
Da proa as velas sós ao vento dando,
Inclinam pera a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande e tão secreta,
Voa do Céu ao mar como ũa seta.

19
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerúlea companhia,
Que, porque no salgado mar nasceu,
Das águas o poder lhe obedecia;
E, propondo-lhe a causa a que deceu,
Com todos juntamente se partia
Pera estorvar que a armada não chegasse
Aonde pera sempre se acabasse.

20
Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas branca escuma;
Cloto co peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma;
Salta Nise, Nerine se arremessa
Por cima da água crespa em força suma;
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

21
Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
Não sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga tão fermosa.
Já chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.

22
Põe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, estão de jeito
Que em vão assopra o vento, a vela inchando;
Põem no madeiro duro o brando peito,
Pera detrás a forte nau forçando;
Outras em derredor levando-a estavam
E da barra inimiga a desviavam.

23
Quais pera a cova as próvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado
As forças exercitam, de inimigas
Do inimigo Inverno congelado;
Ali são seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas estorvando
À gente Portuguesa o fim nefando.

24
Torna pera detrás a nau, forçada,
Apesar dos que leva, que, gritando,
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre astuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estava um marítimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

25
A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hórrida batalha;
Não sabem a razão de fúria tanta,
Não sabem nesta pressa quem lhe valha:
Cuidam que seus enganos são sabidos
E que hão-de ser por isso aqui punidos.

26
Ei-los sùbitamente se lançavam
A seus batéis veloces que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam
Saltando n' água, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro súbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mãos inimigas entregar-se.

27
Assi como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem porventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando (o charco soa),
Por fugir do perigo que se sente,
E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:

28
Assi fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Também foge, saltando na água amara.
Mas, por não darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A âncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.

29
Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos ou das águas sem corrente,
Que a nau passar avante não podia,
Havendo-o por milagre, assi dizia:

30
– «Ó caso grande, estranho e não cuidado!
Ó milagre claríssimo e evidente,
Ó descoberto engano inopinado,
Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo, sàbiamente,
Se lá de cima a Guarda Soberana
Não acudir à fraca força humana?

31
«Bem nos mostra a Divina Providência
Destes portos a pouca segurança,
Bem claro temos visto na aparência
Que era enganada a nossa confiança;
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado!

32
«E, se te move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que, só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos.»

33
Ouviu-lhe estas palavras piadosas
A fermosa Dione e, comovida,
Dantre as Ninfas se vai, que saüdosas
Ficaram desta súbita partida.
Já penetra as Estrelas luminosas,
Já na terceira Esfera recebida
Avante passa, e lá no sexto Céu,
Pera onde estava o Padre, se moveu.

34
E, como ia afrontada do caminho,
Tão fermosa no gesto se mostrava
Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
E tudo quanto a via, namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espíritos vivos inspirava,
Com que os Pólos gelados acendia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria.

35
E, por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e cara,
Se lh' apresenta assi como ao Troiano,
Na selva Ideia, já se apresentara.
Se a vira o caçador que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na água clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.

36
Os crespos fios d' ouro se esparziam
Pelo colo que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava e não se via;
Da alva petrina flamas lhe saíam,
Onde o Minino as almas acendia.
Polas lisas colũnas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

37
Cum delgado cendal as partes cobre
De quem vergonha é natural reparo;
Porém nem tudo esconde nem descobre
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
Mas, pera que o desejo acenda e dobre,
Lhe põe diante aquele objecto raro.
Já se sentem no Céu, por toda a parte,
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

38
E mostrando no angélico sembrante
Co riso ũa tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
E se torna entre alegre, magoada,
Destarte a Deusa a quem nenhũa iguala,
Mais mimosa que triste ao Padre fala:

39
– «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
Que, pera as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afábil e amoroso,
Posto que a algum contrairo lhe pesasse;
Mas, pois que contra mi te vejo iroso,
Sem que to merecesse nem te errasse,
Faça-se como Baco determina;
Assentarei, enfim, que fui mofina.

40
«Este povo, que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo;
Por ele a ti rogando, choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo é mal tratado;
Quero-lhe querer mal, será guardado.

41
«Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fui ...» E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lágrimas ardentes,
Como co orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

42
E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co vulto alegre, qual, do Céu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
As lágrimas lhe alimpa e, acendido,
Na face a beija e abraça o colo puro;
De modo que dali, se só se achara,
Outro novo Cupido se gerara.

43
E, co seu apertando o rosto amado,
Que os saluços e lágrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,
Por lhe pôr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos Fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira enfim lhe está dizendo:

44
– «Fermosa filha minha, não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ninguém comigo possa mais
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
Há-de fazer nas partes do Oriente,

45
«Que, se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo,
E se o piadoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando.

46
«Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacíssimos e duros
Deles sempre vereis desbaratados;
Os Reis da Índia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados,
E por eles, de tudo enfim senhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

47
«Vereis este que agora, pres[s]uroso,
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno de medroso,
Sem vento suas águas encrespando.
Ó caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Ó gente forte e de altos pensamentos,
Que também dela hão medo os Elementos!

48
«Vereis a terra que a água lhe tolhia,
Que inda há-de ser um porto mui decente,
Em que vão descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa, enfim, que agora urdia
O mortífero engano, obediente
Lhe pagará tributos, conhecendo
Não poder resistir ao Luso horrendo.

49
«E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado;
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.

50
«Vereis a inexpugnábil Dio forte
Que dous cercos terá, dos vossos sendo;
Ali se mostrará seu preço e sorte,
Feitos de armas grandíssimos fazendo.
Envejoso vereis o grão Mavorte
Do peito Lusitano, fero e horrendo;
Do Mouro ali verão que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

51
«Goa vereis aos Mouros ser tomada,
A qual virá despois a ser senhora
De todo o Oriente, e sublimada
Cos triunfos da gente vencedora.
Ali, soberba, altiva e exalçada,
Ao Gentio que os Ídolos adora
Duro freio porá, e a toda a terra
Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

52
«Vereis a fortaleza sustentar-se
De Cananor, com pouca força e gente;
E vereis Calecu desbaratar-se,
Cidade populosa e tão potente;
E vereis em Cochim assinalar-se
Tanto um peito soberbo e insolente
Que cítara jamais cantou vitória
Que assi mereça eterno nome e glória.

53
«Nunca com Marte instruto e furioso
Se viu ferver Leucate, quando Augusto
Nas civis Áctias guerras, animoso,
O Capitão venceu Romano injusto,
Que dos povos de Aurora e do famoso
Nilo e do Bactra Cítico e robusto
A vitória trazia e presa rica,
Preso da Egípcia linda e não pudica,

54
«Como vereis o mar fervendo aceso
Cos incêndios dos vossos, pelejando,
Levando o Idololatra e o Mouro preso,
De nações diferentes triunfando;
E, sujeita a rica Áurea Quersoneso,
Até o longico China navegando
E as Ilhas mais remotas do Oriente,
Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

55
«De modo, filha minha, que de jeito
Amostrarão esforço mais que humano,
Que nunca se verá tão forte peito,
Do Gangético mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas ao Estreito
Que mostrou o agravado Lusitano,
Posto que em todo o mundo, de afrontados,
Re[s]sucitassem todos os passados.»

56
Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
Pera onde sem receio a frota venha;
E, pera que em Mombaça, aventurado,
O forte Capitão se não detenha,
Lhe manda mais que em sonhos lhe mostrasse
A terra onde quieto repousasse.

57
Já pelo ar o Cileneu voava;
Com as asas nos pés à Terra dece;
Sua vara fatal na mão levava,
Com que os olhos cansados adormece;
Com esta, as tristes almas revocava
Do Inferno, e o vento lhe obedece;
Na cabeça o galero costumado;
E destarte a Melinde foi chegado.

58
Consigo a Fama leva, por que diga
Do Lusitano o preço grande e raro,
Que o nome ilustre a um certo amor obriga,
E faz, a quem o tem, amado e caro.
Destarte vai fazendo a gente, amiga,
Co rumor famosíssimo e perclaro.
Já Melinde em desejos arde todo
De ver da gente forte o gesto e modo.

59
Dali pera Mombaça logo parte,
Aonde as naus estavam temerosas,
Pera que à gente mande que se aparte
Da barra imiga e terras suspeitosas;
Porque mui pouco val esforço e arte
Contra infernais vontades enganosas;
Pouco val coração, astúcia e siso,
Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

60
Meio caminho a noite tinha andado,
E as Estrelas no Céu co a luz alheia,
Tinham o largo Mundo alumiado,
E só co sono a gente se recreia.
O Capitão ilustre, já cansado
De vigiar a noite que arreceia,
Breve repouso antão aos olhos dava,
A outra gente a quartos vigiava;

61
Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
Dizendo: – «fuge, fuge, Lusitano,
Da cilada que o Rei malvado tece,
Por te trazer ao fim e extremo dano!
Fuge, que o vento e o Céu te favorece;
Sereno o tempo tens e o Oceano
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes seguro agasalhar-te!

62
«Não tens aqui senão aparelhado
O hospício que o cru Diomedes dava,
Fazendo ser manjar acostumado
De cavalos a gente que hospedava;
As aras de Busíris infamado,
Onde os hóspedes tristes imolava,
Terás certas aqui, se muito esperas:
Fuge das gentes pérfidas e feras!

63
«Vai-te ao longo da costa discorrendo
E outra terra acharás de mais verdade,
Lá quási junto donde o Sol, ardendo,
Iguala o dia e noite em quantidade;
Ali tua frota alegre recebendo,
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria
E, pera a Índia, certa e sábia guia.»

64
Isto Mercúrio disse, e o sono leva
Ao Capitão, que, com mui grande espanto,
Acorda e vê ferida a escura treva
De ũa súbita luz e raio santo;
E vendo claro quanto lhe releva
Não se deter na terra inica tanto,
Com novo esprito ao mestre seu mandava
Que as velas desse ao vento que assoprava.

65
– «Dai velas (disse) dai ao largo vento,
Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro Assento,
Que só em favor de nossos passos anda.»
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de ũa e de outra banda;
Levam gritando as âncoras acima,
Mostrando a ruda força que se estima.

66
Neste tempo que as âncoras levavam,
Na sombra escura os Mouros escondidos
Mansamente as amarras lhe cortavam,
Por serem, dando à costa, destruídos;
Mas com vista de linces vigiavam
Os Portugueses, sempre apercebidos;
Eles, como acordados os sentiram,
Voando, e não remando, lhe fugiram.

67
Mas já as agudas proas apartando
Iam as vias húmidas de argento;
Assopra-lhe galerno o vento e brando,
Com suave e seguro movimento.
Nos perigos passados vão falando,
Que mal se perderão do pensamento
Os casos grandes, donde em tanto aperto
A vida em salvo escapa por acerto.

68
Tinha ũa volta dado o Sol ardente
E noutra começava, quando viram
Ao longe dous navios, brandamente
Cos ventos navegando, que respiram.
Porque haviam de ser da Maura gente,
Pera eles arribando, as velas viram.
Um, de temor do mal que arreceava,
Por se salvar a gente à costa dava.

69
Não é o outro que fica tão manhoso,
Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
Sem o rigor de Marte furioso
E sem a fúria horrenda de Vulcano;
Que, como fosse débil e medroso
Da pouca gente o fraco peito humano,
Não teve resistência; e, se a tivera,
Mais dano, resistindo, recebera.

70
E como o Gama muito desejasse
Piloto pera a Índia, que buscava,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse,
Mas não lhe sucedeu como cuidava;
Que nenhum deles há que lhe ensinasse
A que parte dos céus a Índia estava;
Porém dizem-lhe todos que tem perto
Melinde, onde acharão piloto certo.

71
Louvam do Rei os Mouros a bondade,
Condição liberal, sincero peito,
Magnificência grande e humanidade,
Com partes de grandíssimo respeito.
O Capitão o assela por verdade,
Porque já lho dissera deste jeito
O Cileneu em sonhos; e partia
Pera onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

72
Era no tempo alegre, quando entrava
No roubador de Europa a luz Febeia,
Quando um e o outro corno lhe aquentava,
E Flora derramava o de Amalteia;
A memória do dia renovava
O pres[s]uroso Sol, que o Céu rodeia,
Em que Aquele a quem tudo está sujeito
O selo pôs a quanto tinha feito;

73
Quando chegava a frota àquela parte
Onde o Reino Melinde já se via,
De toldos adornada e leda de arte
Que bem mostra estimar o Santo dia.
Treme a bandeira, voa o estandarte,
A cor purpúrea ao longe aparecia;
Soam os atambores e pandeiros;
E assi entravam ledos e guerreiros.

74
Enche-se toda a praia Melindana
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira e mais humana
Que toda a doutra terra atrás deixada.
Surge diante a frota Lusitana,
Pega no fundo a âncora pesada;
Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

75
O Rei, que já sabia da nobreza
Que tanto os Portugueses engrandece,
Tomarem o seu porto tanto preza
Quanto a gente fortíssima merece;
E com verdadeiro ânimo e pureza,
Que os peitos generosos ennobrece,
Lhe manda rogar muito que saíssem
Pera que de seus reinos se servissem.

76
São oferecimentos verdadeiros
E palavras sinceras, não dobradas,
As que o Rei manda aos nobres cavaleiros
Que tanto mar e terras têm passadas.
Manda-lhe mais lanígeros carneiros
E galinhas domésticas cevadas,
Com as frutas que antão na terra havia;
E a vontade à dádiva excedia.

77
Recebe o Capitão alegremente
O mensageiro ledo e seu recado;
E logo manda ao Rei outro presente,
Que de longe trazia aparelhado:
Escarlata purpúrea, cor ardente,
O ramoso coral, fino e prezado,
Que debaxo das águas mole crece,
E, como é fora delas, se endurece.

78
Manda mais um, na prática elegante,
Que co Rei nobre as pazes concertasse
E que de não sair, naquele instante,
De suas naus em terra, o desculpasse.
Partido assi o embaixador prestante,
Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava:

79
– «Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
Foi da suma Justiça concedido
Refrear o soberbo povo duro,
Não menos dele amado, que temido:
Como porto mui forte e mui seguro,
De todo o Oriente conhecido,
Te vimos a buscar, pera que achemos
Em ti o remédio certo que queremos.

80
«Não somos roubadores que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vão matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da Índia, grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.

81
«Que geração tão dura há i de gente,
Que bárbaro costume e usança feia,
Que não vedem os portos tão sòmente,
Mas inda o hospício da deserta areia?
Que má tenção, que peito em nós se sente,
Que de tão pouca gente se arreceia?
Que, com laços armados, tão fingidos,
Nos ordenassem ver-nos destruídos?

82
«Mas tu, em quem mui certo confiamos
Achar-se mais verdade, o Rei benino,
E aquela certa ajuda em ti esperamos
Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
A teu porto seguros navegamos,
Conduzidos do intérprete divino;
Que, pois a ti nos manda, está mui claro
Que és de peito sincero, humano e raro.

83
«E não cuides, o Rei, que não saísse
O nosso Capitão esclarecido
A ver-te ou a servir-te, porque visse
Ou suspeitasse em ti peito fingido;
Mas saberás que o fez, por que cumprisse
O regimento, em tudo obedecido,
De seu Rei, que lhe manda que não saia,
Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

84
«E porque é de vassalos o exercício
Que os membros têm, regidos da cabeça,
Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
Que ninguém a seu Rei desobedeça;
Mas as mercês e o grande benefício
Que ora acha em ti, promete que conheça
Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Enquanto os rios pera o mar correrem.»

85
Assi dizia; e todos juntamente,
Uns com outros em prática falando,
Louvavam muito o estâmago da gente
Que tantos céus e mares vai passando;
E o Rei ilustre, o peito obediente
Dos Portugueses na alma imaginando,
Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei que é tão longe obedecido;

86
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
– «Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima,
Que vosso preço e obras são de jeito
Pera vos ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento
Não pode ter subido pensamento.

87
«De não sair em terra toda a gente,
Por observar a usada preminência,
Ainda que me pese estranhamente,
Em muito tenho a muita obediência;
Mas, se lho o regimento não consente,
Nem eu consentirei que a excelência
De peitos tão leais em si desfaça,
Só porque a meu desejo satisfaça.

88
«Porém, como a luz crástina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo há tantos dias.
E, se vier do mar desbaratada
Do furioso vento e longas vias,
Aqui terá de limpos pensamentos
Piloto, munições e mantimentos.»

89
Isto disse; e nas águas se escondia
O filho de Latona; e o mensageiro,
Co a embaixada, alegre se partia
Pera a frota no seu batel ligeiro.
Enchem-se os peitos todos de alegria,
Por terem o remédio verdadeiro
Pera acharem a terra que buscavam;
E assi ledos a noite festejavam.

90
Não faltam ali os raios de artifício,
Os trémulos cometas imitando;
Fazem os bombardeiros seu ofício,
O céu, a terra e as ondas atroando;
Mostra-se dos Ciclopas o exercício,
Nas bombas que de fogo estão queimando;
Outros com vozes com que o céu feriam,
Instrumentos altíssonos tangiam.

91
Respondem-lhe da terra juntamente,
Co raio volteando com zunido;
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoira o pó sulfúreo escondido;
A grita se alevanta ao céu, da gente;
O mar se via em fogos acendido
E não menos a terra; e assi festeja
Um ao outro, à maneira de peleja.

92
Mas já o Céu inquieto, revolvendo,
As gentes incitava a seu trabalho;
E já a mãe de Menon, a luz trazendo,
Ao sono longo punha certo atalho;
Iam-se as sombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra em frio orvalho,
Quando o Rei Melindano se embarcava,
A ver a frota que no mar estava.

93
Viam-se em derredor ferver as praias,
Da gente que a ver só concorre leda;
Luzem da fina púrpura as cabaias,
Lustram os panos da tecida seda.
Em lugar de guerreiras azagaias
E do arco que os cornos arremeda
Da Lũa, trazem ramos de palmeira,
Dos que vencem, coroa verdadeira.

94
Um batel grande e largo, que toldado
Vinha de sedas de diversas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres de seu Reino e de senhores.
Vem de ricos vestidos adornado,
Segundo seus costumes e primores;
Na cabeça, ũa fota guarnecido
De ouro, e de seda e de algodão tecida;

95
Cabaia de Damasco rico e dino,
Da Tíria cor, entre eles estimada;
Um colar ao pescoço, de ouro fino,
Onde a matéria da obra é superada,
Cum resplendor reluze adamantino;
Na cinta a rica adaga, bem lavrada;
Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

96
Com um redondo emparo alto de seda,
Nũa alta e dourada hástea enxerido,
Um ministro à solar quentura veda
Que não ofenda e queime o Rei subido.
Música traz na proa, estranha e leda,
De áspero som, horríssono ao ouvido,
De trombetas arcadas em redondo,
Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

97
Não menos guarnecido, o Lusitano,
Nos seus batéis, da frota se partia,
A receber no mar o Melindano,
Com lustrosa e honrada companhia.
Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Mas Francesa era a roupa que vestia,
De cetim da Adriática Veneza,
Carmesi, cor que a gente tanto preza;

98
De botões d' ouro as mangas vêm tomadas
Onde o Sol, reluzindo, a vista cega;
As calças soldadescas, recamadas
Do metal que Fortuna a tantos nega;
E com pontas do mesmo, delicadas,
Os golpes do gibão ajunta e achega;
Ao Itálico modo a áurea espada;
Pruma na gorra, um pouco declinada.

99
Nos de sua companhia se mostrava
Da tinta que dá o múrice excelente
A vária cor, que os olhos alegrava,
E a maneira do trajo diferente.
Tal o fermoso esmalte se notava
Dos vestidos, olhados juntamente,
Qual aparece o arco rutilante
Da bela Ninfa, filha de Taumante.

100
Sonorosas trombetas incitavam
Os ânimos alegres, ressoando;
Dos Mouros os batéis o mar coalhavam,
Os toldos pelas águas arrojando;
As bombardas horríssonas bramavam,
Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
Amiúdam-se os brados acendidos,
Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

101
Já no batel entrou do Capitão
O Rei, que nos seus braços o levava;
Ele, co a cortesia que a razão
(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
Cũas mostras de espanto e admiração,
O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Como quem em mui grande estima tinha
Gente que de tão longe à Índia vinha.

102
E com grandes palavras lhe oferece
Tudo o que de seus reinos lhe cumprisse,
E que, se mantimento lhe falece,
Como se próprio fosse, lho pedisse.
Diz-lhe mais que por fama bem conhece
A gente Lusitana, sem que a visse;
Que já ouviu dizer que noutra terra
Com gente de sua Lei tivesse guerra;

103
E como por toda África se soa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizeram
Quando nela ganharam a coroa
Do Reino onde as Hespéridas viveram;
E com muitas palavras apregoa
O menos que os de Luso mereceram
E o mais que pela fama o Rei sabia;
Mas desta sorte o Gama respondia:

104
– «Ó tu que, só, tiveste piedade,
Rei benigno, da gente Lusitana,
Que com tanta miséria e adversidade
Dos mares exprimenta a fúria insana:
Aquela alta e divina Eternidade
Que o Céu revolve e rege a gente humana,
Pois que de ti tais obras recebemos,
Te pague o que nós outros não podemos.

105
«Tu só, de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz, do mar profundo;
Em ti, dos ventos hórridos de Eolo
Refúgio achamos, bom, fido e jocundo.
Enquanto apacentar o largo Pólo
As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viver, com fama e glória
Viverão teus louvores em memória.»

106
Isto dizendo, os barcos vão remando
Pera a frota, que o Mouro ver deseja;
Vão as naus ũa e ũa rodeando,
Por que de todas tudo note e veja.
Mas pera o Céu Vulcano fuzilando,
A frota co as bombardas o festeja
E as trombetas canoras lhe tangiam;
Cos anafis os Mouros respondiam.

107
Mas, despois de ser tudo já notado
Do generoso Mouro, que pasmava
Ouvindo o instrumento inusitado,
Que tamanho terror em si mostrava,
Mandava estar quieto e ancorado
N' água o batel ligeiro que os levava,
Por falar de vagar co forte Gama
Nas cousas de que tem notícia e fama.

108
Em práticas o Mouro diferentes
Se deleitava, perguntando agora
Pelas guerras famosas e excelentes
Co povo havidas que a Mafoma adora;
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hespéria última, onde mora;
Agora, pelos povos seus vizinhos,
Agora, pelos húmidos caminhos.

109
– «Mas antes, valeroso Capitão,
Nos conta (lhe dizia), diligente,
Da terra tua o clima e região
Do mundo onde morais, distintamente;
E assi de vossa antiga geração,
E o princípio do Reino tão potente,
Cos sucessos das guerras do começo,
Que, sem sabê-las, sei que são de preço;

110
«E assi também nos conta dos rodeios
Longos em que te traz o Mar irado,
Vendo os costumes bárbaros, alheios,
Que a nossa África ruda tem criado;
Conta, que agora vêm cos áureos freios
Os cavalos que o carro marchetado
Do novo Sol, da fria Aurora trazem;
O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

111
«E não menos co tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem há que por fama não conhece
As obras Portuguesas singulares?
Não tanto desviado resplandece
De nós o claro Sol, pera julgares
Que os Melindanos têm tão rudo peito
Que não estimem muito um grande feito.

112
«Cometeram soberbos os Gigantes,
Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
Tentou Perito e Teseu, de ignorantes,
O Reino de Plutão, horrendo e escuro.
Se houve feitos no mundo tão possantes,
Não menos é trabalho ilustre e duro,
Quanto foi cometer Inferno e Céu,
Que outrem cometa a fúria de Nereu.

113
«Queimou o sagrado templo de Diana,
Do sutil Tesifónio fabricado,
Heróstrato, por ser da gente humana
Conhecido no mundo e nomeado.
Se também com tais obras nos engana
O desejo de um nome avantajado,
Mais razão há que queira eterna glória
Quem faz obras tão dinas de memória.»

 

 


NOTAS

1.1-7 
"Já neste tempo o lúcido Planeta": o Sol. Lúcido, brilhante; planeta, por ser considerado uma estrela errática; "... e lenta meta": vagarosa, que tarda em chegar (ao horizonte); "Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo": Camões teve uma ideia concreta deste Deus Nocturno? Érebo não pode ser, porque é um deus das trevas infernais. Nix, sua irmã, é uma deusa da noite, mas trata-se de um deus. Trata-se talvez de Héspero. Em Plauto (Amphitruo), Nocturnus é o deus da noite; mas nos Enfatriões de Camões é Mercúrio quem manda sobre a extensão da noite; "Quando as infidas gentes ...": quando as gentes infiéis. Lúcido e infidas são latinismos.

2.2-4
"O mortífero engano, ...": mortífero é latinismo; "... salsa via": salsa é latinismo (salgada).

4.1-4
"E se buscando vás mercadoria": vás, forma antiga; o aurífero Levante" e "... droga salutífera ..."; aurífero e salutífero são latinismos.

6.3-6
"O mensageiro astuto ...": manhoso: "O Mouro como era astuto, & sabia que o Governador não se podia deter ali muito, foi-lhe dilatando o tempo de recado em recado ..." (Couto, V.VII-VI); "... cauta fantasia": cauta é um latinismo.

7.3-6
"Por que pudessem ser aventurados" e "por que notem dos Mouros enganosos": por que": para que.

8.3
"Tenha firme, segura, ..." segura é um latinismo: isenta de cuidados.

10.1-3
"Mas aquele que sempre a mocidade / Tem no rosto perpétua, e foi nascido / De duas mães, ...": Baco foi sempre representado pelos artistas em figura de jovem. Quanto a 10.3, v. o nosso comentário a I.73.1-2.

11.1-8
"Ali tinha em retrato afigurada": Castanheda, I.IX: "Tabẽ estes nossos forão levados a casa de dous mercadores Indios, parece q[~] Christãos de Sam Thome: q[~] sabendo q[~] os nossos erão Christãos mostrarão coeles muyto prazer, & os abraçavão, & convidarão: & mostrarãlhe pintada em hũa carta a figura do Spirito Sancto a q[~] adoravão. E perãteles fizerã sua adoração em giolhos cõ geito domẽs muyto devotos"; "só das línguas ... / De fogo ...": os doze Apóstolos receberam delas o dom das línguas.

12.6
"Na Pancaia odorífera ...": Pancaia, ilha fabulosa ou, segundo outros, parte da Arábia Feliz. Diz Virgílio, G, II.139: "Totaque thuriferis Panchaia pinguis arenis". Isaque Vossius, nas suas Observações a Pompónio Mela (ed. de 1748), diz, porém, o seguinte: "Erat quidem Panchaia Arabiae Troglodyticae pars, verum non in ea Troglodyticae parte, qua est Heliopolis, verum ista, quae ostio sinus Arabaci adjacet. Errare enim eos qui Panchaiam Arabiae Felicis portionem faciunt ..." (p. 855.) Para Estrabão a "terra de Pancaia" era uma invenção de Euhemerus.

12.7
"O Tioneu ...": Baco, filho de Tione (ou Sémele), mãe de Dioniso.

13.3-5
" ... não vendo que enganados" (a rimar com agasalhados e espalhados): a edição princeps tem enganado. JMR, para quem o texto do poema estava sempre certo, explica que, exigindo a rima a leitura de "enganados", o que para isso falta vai-se buscar ao começo do verso seguinte (v. LP, vol. II, 1930-31, p. 178); "Mas, assi como os raios espalhados / Do Sol foram no mundo ...": construção posterius prius: primeiro nasce o Sol, depois a Aurora (v. JMR, LP, vol. II, 1930-31, p. 127, nota).

13.7-8
"Apareceu no rúbido Horizonte": rúbido (vermelho) é latinismo; "Na moça de Titão a roxa fronte": Titão (Tithonus), filho de Laomedonte e marido da Aurora. Virgílio, E, IV.584-585:

Et iam prima nouo spargebat lumine terras
Tithoni croceum linquens Aurora cubile.

(Já a Aurora deixando o leito dourado de
Titão começava a banhar a Terra com a sua luz nova.)

Já FS notou que Camões disse com as palavras de Petrarca em Triunfos, cap. I: "E la fanciulla de Titone, &c"; "Na moça ...", por "Da moça ...."; "roxa fronte": rubra fonte.

14.8
"Dentro no salso rio entrar queria.": Dentro no, por dentro do, era frequente no século XVI (v. AFGV, NC, 3.º fasc., p. 14); "no salso rio" é latinismo.

17.7
"E que incautos ...": incautos é latinismo.

18.1
"As âncoras tenaces vão levando": tenaces (que resistem) é latinismo. Castanheda, I.IX.: "E não querẽdo nosso senhor q[~] os nossos ali acabassem como os mouros tinhão ordenado desviuou ho per esta maneira, q[~] levada a capitaina nũca quis fazer cabeça pera entrar dẽtro & ya sobre hũ baixo q[~] tinha por popa. O que visto per Vasco da Gama por não se perder, mandou surgir muy depressa." Vão levando é, aqui, o acto de ir arrancando as âncoras do fundo.

18.3-4
"Da proa as velas sós ao vento dando": dar velas é expressão latina: velas dare; "... barra abalizada": com balizas.

18.5
"Mas a linda Ericina, que guardando": no poema é Ericina quem vai salvar as naus. Ericina, outro nome de Afrodite (Vénus). Érix é o herói que deu o seu nome à montanha siciliana célebre pelo santuário de Afrodite, que o coroava. Horácio, O, I.II.33: "Erycina ridens."

19.1-2
"Convoca as alvas filhas de Nereu": Nereu, o Velho do Mar, filho de Pontos e de Gaia. Teve por mulher Dóris, outra filha do Oceano, e com ela gerou as Nereidas; "... cerúlea companhia": é latinismo: cérulo, azul.

19.3-4
"... porque no salgado mar nasceu, / Das águas o poder lhe obedecia": ora fazem de Afrodite (Vénus) a filha de Zeus e de Dione e ora de Úrano, cujos órgãos genitais, cortados por Cronos, caíram no mar e geraram a deusa, a "Mulher-nascida-das-Ondas". Assim se explica o poder de Vénus sobre as Nereidas. Outra tradição fá-la nascer da espuma do mar.

19.7
"Para estorvar que a armada não chegasse": sintaxe hoje desusada.

20.2
"... as argênteas caudas ...": argênteas (prateadas) é latinismo.

20.3
"Cloto co peito corta e atravessa": lapso de Camões. Cloto não é nenhuma Nereida, mas sim uma das Parcas. Cloto estará por Doto. Virgílio, E, IX.102-103: "Qualis Nereia Doto / et Galatea secant spumantem pectore pontum."

20.5
"Salta Nise, Nerine se arremessa". Numa lista de setenta e sete nomes não aparecem Nise e Nerine. Teriam sido inventados pelo Poeta.

20.8
"De temor das Nereidas apressadas": "As Nereidas, dizia-se, viviam no fundo do mar, no palácio de seu pai (Nereu), sentadas em tronos de oiro. Eram todas de uma grande beleza. Ocupavam o seu tempo a fiar, a tecer e a cantar. Os poetas imaginam-nas também divertindo-se nas vagas, deixando flutuar a cabeleira, nadando por aqui e por ali entre os tritões e os delfins" (Grimal).

21.1-2
"Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso": o nome de Tritão aplica-se muitas vezes a um conjunto de seres que fazem parte do cortejo de Posídon. A parte superior do corpo como a de um homem, mas a inferior em forma de peixe. As Nereidas também possuem "argênteas caudas" (II.20.2); com gesto aceso pertence para Dione; "Vai a linda Dione furiosa": como diz Textor, Epithetorum opus: "Hanc poetae faciunt Oceani & Thetios filiam matremque Veneris, & pro ipsa Venere accipiunt." Na Officina, CCXXXIII, 1, diz: "Dione Oceani & Tethyos filia, Vencris mater." Camões toma Dione por Vénus.

23.1
"Quais para a cova as próvidas formigas": próvidas (providentes) é latinismo.

24.3-5
"Mareiam velas; ...": manobram as velas; "... ferve a gente irada": no sentido de trabalhar com afã é latinismo: "Omnia ... vento nimbisque videbis / fervere" (Virgílio, G, I.454); "fervet immensusque ruit profundo / Pindarus ore" (Horácio, O, IV.II.7); "O mestre astuto ...": o mestre hábil.

25-1-4
"A celeuma medonha se alevanta": celeuma, todos ao mesmo tempo, gritaria simultânea; "No rudo marinheiro ...": No, por Do; "... hórrida batalha": hórrido é latinismo.

26.2
"... batéis veloces ...": veloces é latinismo.

27.1-2
"Assi como em selvática alagoa / As rãs ...": a metamorfose da "Lícia gente" (27.2) em rãs é belamente contada por Ovídio em M, VI.339-381. Assim como as rãs saltam de todos os lados para o charco, que soa, assim fogem os Mouros.

28.3-5
"... engano ... noto, / ... água amara. / ... penedo imoto": são latinismos. Respectivamente: conhecido amarga imóvel.

29.1
"Vendo o Gama, atentado, a estranheza": Barros, I.IV.V: "Tanto q[~]os Mouros q[~]estavão per os outros navios virão esta revolta, parecẽdolhe que a traição q[~] elles levavão no peito era descoberta, todos hũs por cima dos outros lançaranse aos barcos. Os que estavão em o navio de Vasco da Gama, vendo o q[~]estes fazião fizerão outro tanto: até o piloto de Moçambique que se lançou dos castellos de popa ao mar, tamanho foi o temor em todos"; atentado: atento.

30-5-6
"... do mal aparelhado / Livrar-se sem perigo, sàbiamente": sàbiamente pertence para aparelhado.

31.5-6
"Mas pois saber humano nem prudência": dir-se-ia hoje: pois nem saber humano ... ; "Enganos tão fingidos ..."; traições tão encobertas.

32.2
"Desta mísera gente peregrina": é latinismo: gente estrangeira que anda por mares longínquos.

32.5
"Já penetra as Estrelas luminosas": Estrelas está por Planetas.

33.5-7
"Já na terceira Esfera recebida / Avante passa ...": a terceira Esfera é a da própria Vénus; "... e lá no sexto céu": céu está por esfera: é a esfera de Júpiter, o pai dos deuses.

34.1-8
" ... afrontada do caminho": ofegante; "E tudo quanto a via, namorava": a namorava; "E tornava do fogo a Esfera, fria": e tornava fria a Esfera do fogo. Segundo o sistema de Ptolemeu, o ar era envolvido pelo fogo, pela "Esfera do fogo".

35.3-4
"Se lh' apresenta assi como ao Troiano / Na selva Ideia, já se apresentara": trata-se do juízo de Páris (Troiano), pronunciado no monte Ida, não longe de Tróia, sobre qual das três deusas, Afrodite, Hera ou Palas Ateneia (que se lhe apresentaram despidas), era a mais bela. Mas o juízo não consistia propriamente em decidir qual delas era a mais bela, mas qual dos presentes que as deusas lhe ofereceram era o mais vantajoso. Ganhou Afrodite (Vénus), por ter dito a Páris que a mais bela mulher do Mundo lhe pertenceria. A mais bela mulher do Mundo era Helena, filha de Zeus e de Leda. Este julgamento foi a causa da guerra de Tróia.

35.5-8
"Se a vira o caçador ...": por ter visto Ártemis contra vontade dela quando se banhava, nua, numa fonte, Actéon, caçador, foi pela deusa transformado em veado. Em seguida excitou contra ele a sua matilha de cinquenta cães, que o devorou.

36.3-5
"... lácteas tetas ...": é latinismo; "Da alva petrina flamas lhe saíam": petrina é pròpriamente a cintura, ou cinto com fivelas, de coiro, que se cingia por cima da roupa (Morais). Mas como Vénus ia como aparecera diante de Páris no monte Ida, a petrina é a cintura da mulher, ou o lugar onde se aperta a petrina. (v. AP, EC, p. 259 e nota).

37.4
"O véu, dos roxos lírios pouco avaro": "as partes que a cobrir Natura ensina" (VII.37.4). V. AP, EC, pp. 254 e segs.

37.8
"Ciúmes em Vulcano, amor em Marte": Vulcano era o marido: quanto a Marte, v. o nosso comentário em I.36.1.

38.8
"Vénus vai interceder pelos Portugueses como intercedeu por Eneias" (v. E, I.229-296); "Mais mimosa que triste ...": com a mágoa de pessoa amimada.
Ort.: sembrante (por semblante).

39.3-8
"... afábil e amoroso": afábil é latinismo; "Posto que a algum contrairo lhe pesasse": o lhe é pleonástico; "Sem que to merecesse nem te errasse": nem te ofendesse; "Assentarei, enfim, que fui mofina": mofina, infeliz.
Ort.: contrairo (por contrário).

40.1-5
"Este povo ... / Por ele a ti rogando ...": anacoluto.

41.1-2
"Mas moura enfim ...": forma do conjuntivo do v. morrer; "Que pois eu fui ...": aposiopese ou reticência: deve subentender-se infeliz (ou mofina).

41.5-8
"... como se entre os dentes / Lhe impedira a fala piedosa": o verso 'Lhe impedira ...' só não fica defeituoso se se puder evitar a elisão do lhe e ler lhe-impedira, o que é difícil. Por isso desde MC se vem corrigindo o verso e lendo: 'Se lhe impedira'. JMR, confessando que o segundo verso é defeituoso gramatical e metricamente, afirma que os dois inconvenientes desaparecem "se aproveitarmos o s final da palavra dentes do verso anterior para dele fazermos a conjunção Se" (BCL, 13, p. 699); Lhe impedira (=impedisse) está por a impedira: como se detida entre os dentes a fala piedosa a emudecesse; "Torna a segui-la ...": volta a falar; "o grão Tonante": v. I.20.7-8.

42.2
"Que moveram de um tigre ...": latinismo em mover, por comover, abalar: que moveriam.

42.5-6
"As lágrimas lhe alimpa ...": situação semelhante na Eneida:

     Olli subridens hominum sator atque deorum
voltu, quo caelum tempestatesque serenat,
oscula libavit natae, debinc talia futur.
     "Parce metu, Cytherea, ..."

(I.254-257)

45.1-2
"Que, se o facundo Ulisses escapou": sobre o facundo Ulisses, v. nosso comentário a I.3.1; "De ser na Ogígia Ilha eterno escravo": na Odisseia, VII.241-264, em diálogo de Ulisses com Arete, aquele conta o que passou durante sete anos, no antro de Calipso (na ilha Ogígia) e de que pôde libertar-se por ordem de Zeus. Na Odisseia o diálogo entre Calipso e Ulisses termina por este verso: "E eles voltaram para dentro para ficar nos braços um do outro a amar-se. "Que diria Penélope a este desespero de Ulisses?

45.3
"E se Antenor os seios penetrou / Ilíricos ...": imitação de Virgílio, E, I.242-246:

Antenor potuit mediis elapsus Achivis
Illyricos penetrare sinus atque intima tutus
regna Liburnorum et fontem superare Timavi,
unde per ora novem vasto cum murmure montis
it mare proruptum et pelago premit arva sonanti.

A seguir a estes versos vem este (v. 247):

Hic tamen ille urbem Patavi sedesque locavit.

Pádua teria sido a primeira fundação troiana em Itália.

45.6
"De Cila e de Caríbdis o mar bravo": por conselho de Heleno, Eneias arranjou modo de evitar os perigos de Cila e de Caríbdis (v. En., III.419-432 e III.685-686).

46.3-6
"Os Turcos belacíssimos ... /... / Os Reis da Índia, livres e seguros, / Vereis ao Rei potente sojugados": são latinismos.

47.1-6
"Vereis este que ... / Por tantos medos ... / Tremer dele Neptuno, ...": anacoluto. Medos, perigos; "Que trema e ferva o mar, ...": v. Castanheda, VI.LXXI, e Barros, III.IX.I: na segunda viagem do Gama à Índia, já perto da costa desta, os mareantes sentiram o mar tremer "muyto rijo & por bõ espaço" e alvoroçaram-se por desconhecerem que se tratava de um maremoto. Vasco da Gama acudiu: " – Amigos, prazer & alegria, o mar treme de nós, não ajáes medo, que isto he tremor de terra." O caso saldou-se com a perda de um homem que se atirou ao mar e com a restauração da saúde dos doentes com febre (Barros). Para Castanheda este tremor do mar deu-se aos seis dias de Setembro de 1524, "ao quarto da alva", e para Barros, "hua [falta o ~ no u de hua]quarta feira véspora de nossa Senhora de Setembro ás oito horas da noite", do mesmo ano.

48.1-6
"Vereis a terra que a água lhe tolhia": Moçambique; "O mortífero engano, ...": é latinismo.

49.3
"Vereis de Ormuz o Reino poderoso": Ormuz foi assaltada a primeira vez por Afonso de Albuquerque em 1507; este aí voltou em 1515, estabelecendo-se então o domínio português.

49.5-8
"Ali vereis o Mouro furioso": Castanheda, II.LXII: "E andãdo nestes cõtratos ao terceyro dia despois da batalha quis nosso señor manifestar ho milagre que fizera nele por parte dos nossos. E foy que começarão daparecer sobre a agoa do mar muytos corpos mortos de mouros, pregados de muytas frechas, ho que foy dito ao capitão môr, q[~] espãtado daquilo, mãdou tomar algũs daq[~]les corpos: & vio q[~] verdadeyramẽte erão de mouros, & as frechas taes como aquelas com que os mouros tiravão na batalha. E chorãdo de prazer disse a todos q[~] ali conhecerião o milagre q[~] nosso sñor fizera por eles, que as mesmas frechas que os mouros lhes tiravão tornavão sobreles & os matavão ..."

50.1
"Vereis a inexpugnábil Dio forte": o primeiro cerco de Dio teve lugar em 1538 e terminou pela resistência heróica de António da Silveira; o segundo foi em 1546 e terminou pela vitória de D. João de Castro. A praça era comandada por D. João de Mascarenhas. Inexpugnábil é latinismo.

51.1
"Goa vereis aos Mouros ser tomada": Goa foi tomada por Afonso de Albuquerque em Fevereiro de 1510 e pouco depois abandonada, sendo retomada definitivamente em 25 de Novembro de 1510.

52.1-5
"Vereis a fortaleza sustentar-se / De Cananor ...": Em 1507 o rei de Cananor pôs cerco à fortaleza que os Portugueses tinham naquela cidade. A fortaleza só foi libertada com a chegada em 27 de Agosto de 1507 de uma armada de Tristão da Cunha. Comandava a fortaleza ao tempo Lourenço de Brito; "E vereis Calecu desbaratar-se": Calecute foi destruída em 1509 pelo marechal Fernando Coutinho e por Afonso de Albuquerque; "E vereis em Cochim assinalar-se": refere-se à heróica defesa de Cochim por Duarte Pacheco Pereira contra os exércitos do Samorim de Calecute. O Poeta consagra a esta série de batalhas as est. 13-19 do Canto X; "... peito soberbo e insolente": insolente, orgulhoso.

53.1
"Nunca com Marte instruto e furioso": o Poeta teve sob os olhos o texto latino de En., VIII.675-688. Há expressões idênticas: "Actia bella", "instructo Marte", "fervere Leucaten". Fala-se nestes versos do promontório de Leucate, junto da costa da Acarnânia, não longe do promontório de Actium, à entrada do golfo de Ambrácia, onde António, acompanhado de Cleópatra, foi derrotado por Octávio (César Augusto), em 31 a. C.

53.6-8
"... do famoso / Nilo e do Bactra Cítico e robusto": também iam povos do Bactra Cítico. Os Báctrios são os povos da Bactriana, país da Ásia Central. O país báctrio-grego foi destruído por uma invasão cita no princípio do primeiro século antes da nossa era; "... e presa rica, / Preso da Egípcia linda e não pudica": jogo de palavras. António trazia presa rica, mas vinha preso da célebre Cleópatra VIII, que morreu após António.

54.3-5
"Levando o Idololatra e o Mouro preso": aqui o Poeta conserva a forma latina e a grega". Na maioria dos casos há haplologia: idólatra, em vez de idolólatra; "E, sujeita a rica Áurea Quersoneso": península de Malaca.
Ort.: longico (por longínquo).

55.1-6
"De modo, filha minha, que de jeito": deste modo, assim; "Do Gangético mar ao Gaditano": do Índico (Ganges) ao Atlântico (Cádis); "Que mostrou o agravado Lusitano"; Fernão de Magalhães e o estreito que tem o seu nome. "Agravado" também em X.138.7.

56.1-2
"Como isto disse, manda o consagrado / Filho de Maia à Terra ...": como em Virgílio, E, I.297-299:

Haec ait et Maia genitum demittit ab alto,
ut terrae utque novae pateant Karthaginis arces

56.3
"... pacífico porto ...": pacífico é latinismo.

57.1
"Já pelo ar o Cileneu voava": Cileneu é Mercúrio ou Hermes. O nome de Cileneu vem-lhe de ter nascido numa caverna, no monte Cilene, ao sul da Arcádia. Os atributos de Mercúrio (ou Hermes) são o caduceu, o chapéu de abas largas, as sandálias aladas e uma bolsa, símbolo dos lucros que o comércio confere; "Com esta, as tristes almas revocava": revocar (chamar) é latinismo; galero (do 1. galerus), o chapéu de Mercúrio.

58.6
"Co rumor famosíssimo e perclaro": perclaro (preclaro) é latinismo.

59.8
"Se lá dos Céus não vem celeste aviso": pleonasmo.

60.1-2
"Meio caminho a noite tinha andado. / E as Estrelas no Céu co a luz alheia". Era corrente no tempo de Camões supor-se que as estrelas brilhavam com luz alheia, a do Sol.

60.8
"A outra gente a quartos vigiava": cada quarto de vigia durava oito relógios ou ampulhetas de meia hora. O primeiro quarto de vigia da noite era o quarto de prima; o segundo, o de modorra, e o terceiro, o de alva (LPS, AL, p. 87).

61.2-5
"... fuge, fuge, Lusitano": forma antiga e ainda hoje empregada pelo povo; "Fuge, que o vento e o Céu te favorece": sujeito do plural a concordar com o verbo no singular.

62.2-5
"O hospício que o cru Diomedes dava"; trata-se de uma das façanhas de Hércules. Diomedes, rei da Trácia, tinha por costume fazer devorar pelos seus cavalos os hóspedes que recebia. Uma das tradições quer que Héracles tenha entregue Diomedes aos seus próprios cavalos, que o devoraram; "As aras de Busíris infamado": Busíris, rei do Egipto, sacrificava os estrangeiros no altar de seu pai e acabou por ser morto pelo próprio Héracles (Hércules).

63.1-4
"Vai-te ao longo da costa discorrendo": refere-se a Melinde, que fica junto do Equador, apenas a três graus de latitude sul, e, portanto, durante todo o ano são os dias iguais às noites.

64.6
"... na terra inica tanto": é um latinismo. Na edição princeps o único exemplo de iníqua, em dez exemplos, pelo menos. É natural que a pronúncia não correspondesse à ortografia erudita, mas que se dissesse inico, como em outros muito lugares (v. "Prefácio", III).

65.7
"levam gritando as âncoras ...": levar, erguer, suster (cf. 18.1).

66.3
"Mansamente as amarras lhe cortavam": Castanheda, I.IX: "E nesta mesma noyte à mea noyte sentirão os que vigiavão no navio Birrio [Bérrio] bolir ho cabre de hũa ancora que estava surta, & logo cuydarão que erão toninhas, se não quãdo atentando bem virão que erão os i[~]migos, que a nado estavão picando ho cabre cõ terçados, para que cortado desse o navio à costa & se perdesse, ja q[~] doutra maneyra ho não podião tomar."

67.2
"Iam as vias húmidas de argento": são latinismos; "Assopra-lhe galerno o vento e brando": pleonasmo.

68.1-4
"Tinha ũa volta dado o Sol ardente / E noutra começava ...": o Poeta descreve desta maneira o dia solar; "Ao longe dous navios, brandamente / Cos ventos navegando, que respiram": "& em amanhecẽdo aparecerão dous zambucos / ... / ajulavento da frota tres legoas ao mar" (Castanheda, I.X).

70.4
"Mas não lhe sucedeu como cuidava": verso igual a I.44.8.

71.1-8
"Louvam do Rei os Mouros a bondade": "Todos cõcorrião na bondade delrey de Melinde ..." (Barros, I.IV.V); "Magnificência grande e humanidade": "soube como adiante estava hũa villa chamada Melinde, cujo Rey era homem humano ..." (id., ibid.); "Pera onde o sonho e o Mouro lhe dizia": concordância do sujeito do plural com o verbo no singular.

72.1-4
"Era no tempo alegre, quando entrava / No roubador de Europa a luz Febeia": o dia da chegada a Melinde foi em 15 de Abril de 1498, domingo de Páscoa. O Sol começava a percorrer o signo do Touro (roubador de Europa) em 11 de Abril. Era no tempo alegre em que Flora, deusa das flores, derramava a sua cornucópia; Amalteia, a cabra que alimentou Zeus quando criança e um dos cornos da qual se tornou o corno da abundância.

72.5-8
"A memória do dia renovava /... / Em que Aquele ... / O selo pôs a quanto tinha feito": pôr o selo, pôr a marca.

73.6
"A cor purpúrea ao longe aparecia": é latinismo.

74.3
"Gente mais verdadeira e mais humana": mais civilizada, mais polida (latinismo).

75.6
"Que os peitos generosos ennobrece": nobre de sentimentos.

76.2-5
"... não dobradas": não fingidas; "... lanígeros carneiros": é latinismo.

78.1-7
"... na prática elegante": eloquente; "Como na terra ...": logo que na terra ... ; "Com estilo que Palas ...": Palas, epíteto da deusa Atenas, conhecida, frequentemente, com o nome de Palas Ateneia.

80.6
"Imos buscando ...": forma antiga e popular, por vamos.

81.1
"... há i de gente": forma arcaica, por (no tempo de Camões junto do verbo haver); "Mas inda o hospício da deserta areia": v. Virgílio, E, I.540: "Hospitio prohibemur harenae."

82.1-5
"Mas tu ... A teu porto seguros navegamos": anacoluto; "Que teve o perdido Ítaco em Alcino": o perdido Ítaco Ulisses acolhido por Alcino, rei dos Feácios, que habitavam uma ilha que se pretendeu identificar com Corcira (hoje Corfu) (v. Odisseia, VII). A filha do rei que acolheu Ulisses após o naufrágio era Nausica (v. Odisseia, VI).

82.6
"Conduzidos do intérprete divino": o "intérprete divino", ou mensageiro, que apareceu em sonhos ao Gama. Na En., IV.356, Mercúrio é o interpres divum (ED).

85.2
"Louvavam muito o estâmago da gente": o ânimo, o valor.

87.1-2
"De não sair em terra toda a gente / Por observar a usada preminência": tem sido muito discutido o significado do segundo verso, a meu ver sem razão. Na est. 75, VV. 7 e 8, o Rei de Melinde mandara rogar "que saíssem / Pera que de seus reinos se servissem". O Capitão, porém, para guardar o regimento, não quis sair; portanto, não saiu ninguém "para se respeitar a preeminência".

88.1
Porém, como a luz crástina chegada": crástino é latinismo e significa o dia seguinte; como, assim que; almadia, v. I.92.1.

89.2
"O filho de Latona ...": Apolo, filho de Júpiter e de Latona (ou Leto).

90.5-8
"Mostra-se dos Ciclopas o exercício": os Ciclopes eram ferreiros de Vulcano; "Nas bombas que de fogo estão queimando": por "Nas bombas de fogo que ..."; "Instrumentos altíssonos é latinismo (que têm som alto, ressoantes).

92.1-4
"Mas já o Céu inquieto, revolvendo,": "o céu vai volvendo sem descanso; desfazem-se por fim as trevas da noite, rompendo de novo a luz da madrugada" (LPS, AL); "E já a mãe de Menon, a luz trazendo": Mémnon, o filho de Éos (a Aurora) e de Titono. Foi criado pelas Hespérides e reinava sobre os Etiópios; "... punha certo atalho": punha atalho certo, que se repete todos os dias.

93.1-3
"... ferver as praias": estar em grande animação; "Luzem de fina púrpura as cabaias": vestidura de mangas compridas e aberta ao lado.

94.1-8
"Um batel grande e largo, que toldado": Castanheda, I.XII: "A derradeira oytava de Pascoa, despois de comer foy el rey de Melinde em hũa almadia grãde jũto da nossa frota, & levava vestida hũa cabaya de damasco carmesim, forrada de ceti[~] verde: & na cabeça hũa touca muyto rica. Vinha assẽtado ẽ hũa cadeira despaldas ao modo ãtigo, & era darame muyto bem lavrada & fermosa, & nela hũa almofada de seda: & outra tal como essa jũto coele: cobriase cõ hũ sombreiro de pé de ceti[~] carmesim, & ya junto coele como pajẽ hũ homẽ velho que lhe levava hũ terçado rico cõ a bainha de prata. Trazia muytos anafis, & duas bozinas de marfim de cõprimẽto doyto palmos cada hũa, & erão muyto lavradas: & tãgiãse per hũ buraco q[~] tinhão no meyo: & cõcertavão cõ os anafis. Vinhão cõ elrey obra de vi[~]te mouros fidalgos ataviados todos ricamẽte."

95.1-8
"... rico e dino": de grande valor; "Da Tíria cor..."; Tiro, antiga cidade da Fenícia, célebre pela sua indústria da púrpura; "Onde a matéria da obra é superada": semelhança com este verso de Ovídio: "materiam superabat opus" (M, 11.5).

96.6
"De áspero som, horríssono ao ouvido": a edição princeps tem horrisomo, que, segundo JMR, seria haplologia de horridissimo. Nós adoptámos a correcção horríssono, por ser frequente em Camões esta forma.

98.4
"Do metal que Fortuna ...": de ouro; "Os golpes do gibão ...": vestidura que cobria o corpo até à cintura, por baixo da roupa, ou vestidura externa; "Ao Itálico modo a áurea espada": parece significar segura a talabarte.
Ort.: pruma (por pluma).

99.2-3
"Da tinta que dá o múrice excelente / A vária cor ...": molusco gasterópode que dá a púrpura; da tinta pertence para a vária cor.

99.7-8
"Qual aparece o arco rutilante / Da bela ninfa filha de Taumante": a filha de Taumante (ou Taumas) é Íris. O Poeta designa o arco-íris.

100.1-7
"Sonorosas trombetas incitavam": v. comentário a I.5.1; "Os ânimos alegres ressoando": ressoando pertence para sonorosas trombetas (várias edições transformam o resoando da edição princeps em resonando); "Os toldos pelas águas arrojando": arrojando é um dos muitos casos de acrescentamento protético que se verificam em Camões; arrojando está por rojando; "As bombardas horríssonas ...": v. nosso comentário a II.96.6; "Amiúdam-se os brados acendidos": os estrondos das bombardas.

101.1
"Já no batel entrou do Capitão": Castanheda, I.XII: "E ẽ chegãdo el rey perto dele, disselhe q[~] lhe queria falar no seu batel pera o ver de mais perto: & logo se meteo no batel, & fezlhe tamanha cortesia como se fora rey como ele, & oulhava parele & pera os outros como pera cousa estranha."

102.8
"... tivesse guerra": por tivera.

103.1-4
"E como por toda África se soa": são soados; "Do Reino onde as Hespéridas viveram": Hespéridas, "filhas da noite" em Hesíodo, que "para lá do ilustre oceano cuidam das belas maçãs de oiro e das árvores que têm tal fruto" (Tb., vv. 215 a 218). Nesta est. é evidente que o Poeta coloca as Hespéridas em Marrocos. Na Elegia II o Poeta escreveu: "Dali [do monte Ábila, em Ceuta] estou tenteando aonde viu [Hércules Tebano] / o pomar das Hespéridas, matando / a serpe que a seu passo resistiu." Para Estrabão (Geografia, 7.3.6), Hespéridas e Górgonas eram invenções.

105.1-4
"Tu só, de todos quantos queima Apolo": todos os africanos do costa oriental; "... dos ventos hórridos de Eolo": hórridos é latinismo; Éolo, rei dos ventos e das tempestades; "Refúgio ... fido e jocundo": fido (fiel) e jocundo (alegre) são latinismos.

106.3-7
"Vão as naus hũa e hũa rodeando": Castanheda, I.XII: "E despois de acabarẽ de falar & cõfirmar amizade antreles, ãdou el rey folgãdo por antre a nossa frota, dõde tíravão muytas bõbardadas, q[~] ele folgava muyto douvir tirar"; "... pera o Céu Vulcano fuzilando": a artilharia; "... trombetas canoras ...": canoras (melodiosas) é latinismo.

107.2-3
"Do generoso Mouro ...": magnânimo; "Ouvindo o instrumento inusitado": ouvindo os tiros das bombardas. Inusitado (desusado) é latinismo.

108.6
"De toda a Hespéria última, onde mora": Gaspar Barreiros, Chor., p. 197: "E porque também Hespanha foi chamada dos Graegos Hesperia da mesma strella, lhe chamou Horatio Hesperia ultima, por diferença de Italia, que à respecto dos Graegos ê à primeira."

109.1-8
Prepara-se a conversa do Capitão e do rei de Melinde, que tem pequena base histórica; "Da terra tua o clima e região": a palavra clima tinha sentido diferente no século XVI. Assim "Portugal estendia-se na Europa sobre o clima de Roma ao norte de Lisboa, e ao sul sobre o clima de Rodes" (v. LPS, AL, p. 100).

110.5
"Conta, que agora vêm cos áureos freios": vem rompendo a manhã.

111.1
"E não menos co tempo se parece": "o desejo de ouvir o que contares não é menor que o tempo de que dispomos, pois vem rompendo a aurora" (v. MR, comentário à est. 111).

112.1-8
"Cometeram soberbos os Gigantes": os Gigantes, filhos da Terra (Gaia), quiseram combater os deuses olímpicos, escalando o céu, e foram derrotados; "Tentou Perito e Teseu, de ignorantes": Teseu e Pirítoo tinham jurado darem-se mùtuamente como esposa uma filha de Zeus. Nessa intenção Teseu acompanhou Pirítoo aos Infernos para raptarem Perséfone (Prosérpina). Chegaram aos Infernos, mas não puderam sair de lá. Foram guardados como prisioneiros até à vinda de Héracles. Este conseguiu trazer Teseu à luz do dia, mas quando tentou libertar Pirítoo a terra tremeu e Héracles, tendo compreendido que os deuses não queriam libertar o culpado, abandonou o intento e Pirítoo ficou nos Infernos; "O Reino de Plutão, horrendo e escuro": Plutão é o deus dos Infernos; "Tentou Pirito e Teseu ..."; o verbo, no singular, concorda com um dos elementos do sujeito; "... a fúria de Nereu": a fúria do Oceano.

113.1-4
"Queimou o sagrado templo de Diana": o templo de Ártemis (Diana), em Éfeso, foi incendiado por um louco de origem cretense, que supunha assim imortalizar o seu nome. Diz-se que o incêndio teve lugar na própria noite em que nasceu Alexandre Magno (356 a. C.). O primeiro arquitecto foi Chersiphron (o "Ctesifónio" de Camões). O templo foi reconstruído com maior grandeza (Estrabão, Geografia, 14, I, 22). Plínio, escrevendo muito mais tarde, descreve o templo e diz: "opere praefuit Chersiphron architectus" (XXXVI.XXI.95). Plínio diz ainda: "Graecae magnificentiae vera admiratio exstat templum Ephesiae Dianae CXX annis factum a tota Asia" (XXXVI.XXI.95).